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O segredo invisível dos atletas: como treino e dieta moldam a microbiota intestinal

A modificação benéfica da microbiota intestinal após exercícios físicos regulares aumenta o desempenho.

MARÍA DELGADO, NUTRICIONISTA DO GABINETE DE NUTRIÇÃO DESPORTIVA E ALTO RENDIMENTO

O segredo invisível dos atletas: como treino e dieta moldam a microbiota intestinal
O segredo invisível dos atletas: como treino e dieta moldam a microbiota intestinal

Em artigos anteriores, explorámos o papel dos probióticos na saúde e os benefícios da sua suplementação para a microbiota intestinal. Mas como é que o exercício físico e a dieta de um atleta afetam esta microbiota intestinal? A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que residem no intestino e que tem uma relação direta com o bom funcionamento do sistema imunitário, a integridade da barreira intestinal, a digestão e absorção de determinados nutrientes e ainda o sistema nervoso, influenciando o humor e o comportamento. A composição da microbiota intestinal é modificada por diversos fatores, entre os quais a dieta, o ambiente, o uso de determinados medicamentos, o stress, o repouso e o exercício físico (1).

O exercício físico praticado regularmente é um fator extrínseco capaz de modificar a diversidade e a composição da microbiota intestinal através de diversas ações. Os indivíduos fisicamente ativos apresentam uma maior proporção de bactérias Firmicutes, diretamente relacionadas com a formação de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), especialmente o ácido butírico. Este composto tem um impacto benéfico no sistema imunitário, na motilidade intestinal, na função metabólica, na redução do stress oxidativo e no equilíbrio entre o anabolismo e o catabolismo muscular.

Além disso, o exercício físico também influencia a produção de metabolitos que interagem no intestino, reduz os efeitos da disfunção da barreira intestinal, preserva o muco intestinal e aumenta a produção de proteínas antimicrobianas. Para além disso, a prática regular de exercício pode levar à diminuição de estirpes diretamente relacionadas com o risco de obesidade e distúrbios metabólicos como a diabetes, hiperlipidemia e hipertensão, servindo, por isso, como estratégia preventiva para uma grande variedade de doenças crónicas. Todas estas ações têm um efeito positivo na microbiota, aumentando a diversidade e o equilíbrio entre as comunidades bacterianas benéficas (2).

A modificação benéfica da microbiota intestinal após exercício físico regular em indivíduos treinados leva a uma melhoria da saúde, o que impacta diretamente o desempenho, criando assim uma relação simbiótica bidirecional entre a microbiota e o exercício físico. No entanto, foi demonstrado que as alterações positivas nas populações bacterianas intestinais são reversíveis se o indivíduo regressar a um estado de inatividade (1 e 3).

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Por outro lado, é importante destacar que a dieta do atleta é também um fator crucial para enriquecer a diversidade da microbiota intestinal e melhorar a percentagem de estirpes benéficas. O consumo excessivo de açúcares simples e gorduras saturadas está associado a uma microbiota intestinal que promove a inflamação, enquanto uma dieta baseada em produtos de origem vegetal, leguminosas e hidratos de carbono complexos melhora os níveis de bactérias fermentadoras de fibras, aumentando assim o número de estirpes benéficas (2).

O consumo de fibra, por sua vez, aumenta a produção de ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), que apresentam múltiplos benefícios para a saúde, como a regulação do metabolismo lipídico no fígado, o fornecimento de energia às células do cólon e a melhoria do trânsito intestinal. Além disso, o aumento do consumo de ácidos gordos ómega-3, encontrados no peixe, leva a níveis mais elevados de DHA, que está associado a níveis elevados das famílias Lachnospiraceae e Ruminococcaceae, estirpes cuja principal função é também a fermentação da fibra alimentar (4 e 5).

Portanto, em conclusão, parece que consumir um padrão alimentar o mais semelhante possível à dieta mediterrânica, rica em vegetais, frutas, nozes, leguminosas, produtos lácteos, hidratos de carbono complexos e peixe, e que limita o consumo de carnes vermelhas e processadas e doces, bem como a prática de exercício físico regularmente, melhora a composição e a diversidade da microbiota intestinal, o que, por sua vez, se traduz numa melhoria do estado de saúde e do desempenho do atleta (4).

BIBLIOGRAFIA:

 

  1. O’Sillvan, O., Cronin, W., Clarke, S., Murphy, E., Molloy, M., Shanahan, F., D cotter, P. Exercise and the microbiota. Gut microbes 2015. 6:2: 131-136.
  2. Monda, V., Villano, I., Messina, A., Valenzano, A., Esposito, T., moscatelli, F., Viggiano, A., Cibelli, G., Chieffi, S., Monda, M., Messina, G. Exercise modifies the gut microbiota with positive healt effects. Oxidat. Med. And cellular longevity. 2017. 3831972. doi: 10.1155/2017/3831972.
  3. Motiani, K., Collado, M.C., Eskelinen, J.J., Virtanemen, K., Loyttyniemi, El., Salminen, S., Nuutila, P., Kalliokoski, K., Hannukainen, C. Exercise Training Modulates Gut Microbiota profile and improves endotoxemia. Med. Sci. Sports. 2020. 52(1): 94-104.
  4. Goubert, C., Kong, G., Renoir, T., Hannan, A. Exercise, diet and stress as modulators of gut microbiota: Implications for neurodegenerative diseases. Neurobiol Dis. 2020, 134.
  5. Clark, A., Mach, N. Exercise-induced stress behavior, gut-microbiota-nrain axis and diet: a systematic review for athletes. J. Int. Soc. Sports. Nutr. 2016. 24;13:43

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