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Análises ao sangue: descobre quais são os parâmetros mais importantes no desporto

Fazes análises ao sangue todos os anos? Se treinas com frequência, não basta verificar apenas se o colesterol está bom. Um exame pode fornecer informações muito úteis sobre o ferro, a anemia, o estado nutricional, a recuperação ou a saúde geral, mas é necessário saber quais os parâmetros que são realmente relevantes para um desportista.

Lucas Delgado

 Análises ao sangue: descobre quais são os parâmetros mais importantes no desporto
Análises ao sangue: descobre quais são os parâmetros mais importantes no desporto

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Existe uma tentação muito comum entre quem treina: transformar as análises ao sangue numa espécie de "teste de desempenho". Quanto mais parâmetros, melhor. E, se algum deles aparecer ligeiramente fora do intervalo de referência do laboratório, pensamos imediatamente que algo está a correr mal. A realidade é bem diferente.

Um exame ao sangue não serve para medir diretamente se teremos força suficiente para superar uma prova de ciclismo, BTT ou gravel, nem sequer se vamos recuperar bem de um treino. Serve para detetar problemas de saúde, deficiências nutricionais e certas alterações que podem afetar o desempenho. E, acima de tudo, permite acompanhar a evolução de um atleta ao longo do tempo.

De facto, as revisões atuais sobre os biomarcadores no desporto reforçam uma ideia fundamental: os resultados devem ser interpretados tendo em conta o nível habitual de cada atleta, o treino recente, a alimentação, a hidratação, o sono, o sexo, as doenças recentes e o contexto desportivo. Um valor isolado pode dizer muito menos do que parece.

1. Hemograma: o ponto de partida

Se tivéssemos de escolher um exame indispensável, seria o hemograma. Aqui encontramos vários parâmetros, mas, para o atleta, há quatro que são especialmente interessantes:

  • Hemoglobina.
  • Hematócrito.
  • Volume corpuscular médio (VCM).
  • Número de glóbulos vermelhos.

A hemoglobina é especialmente importante porque é responsável pelo transporte de oxigénio dos pulmões para os tecidos. Se houver anemia, a capacidade de transporte de oxigénio pode diminuir e o desempenho aeróbico pode ser afetado. Como referência geral, a OMS considera a anemia nos adultos quando os níveis de hemoglobina estão abaixo dos 13 g/dL nos homens e dos 12 g/dL nas mulheres não grávidas.

No entanto, no caso dos atletas, é preciso ter cuidado ao interpretar o número de forma isolada: o treino pode aumentar o volume plasmático e provocar uma "hemodiluição", alterando alguns valores sanguíneos sem que isso indique necessariamente uma doença. Por isso, mais do que procurar um nível de hemoglobina "perfeito", o importante é conhecer o seu valor habitual e acompanhar a sua evolução.

2. Ferritina: provavelmente o parâmetro nutricional mais importante

Se praticas ciclismo, se segues uma dieta vegetariana ou vegan ou notaste uma quebra inexplicável no desempenho, há um valor que merece especial atenção: a ferritina. A ferritina serve como indicador dos stocks de ferro do organismo. E é aqui que surge uma das grandes confusões: podemos ter níveis normais de hemoglobina e, ainda assim, apresentar baixas reservas de ferro. No caso das mulheres este porrmenor é mais evidente.

Em medicina desportiva, considera-se geralmente que uma ferritina inferior a 15 µg/L indica stocks praticamente esgotados e que valores entre 15 e 30 µg/L apontam para reservas baixas. Por este motivo, 30 µg/L é frequentemente utilizado como ponto de corte prático para atletas. No entanto, não se deve ficar obcecado em atingir níveis muito elevados de ferritina. Num atleta sem deficiência, aumentar artificialmente o ferro não proporciona automaticamente mais oxigénio nem melhor desempenho.

Além disso, se for detetada uma ferritina baixa, é necessário investigar a causa: a alimentação insuficiente, a menstruação, a perda de sangue, os problemas de absorção ou as elevadas exigências de treino podem estar na origem.

3. Transferrina e saturação da transferrina: completando o panorama do ferro

Quando há suspeita de deficiência de ferro, nem sempre basta solicitar a ferritina. A transferrina é a proteína responsável pelo transporte do ferro através do sangue, e a saturação da transferrina ajuda-nos a saber quanto desta capacidade de transporte está ocupada pelo ferro.

O ferro sérico, isoladamente, é muito menos útil: pode variar ao longo do dia e ser afetado por diferentes fatores. Por isso, perante uma suspeita de deficiência, faz mais sentido avaliar em conjunto: Hemoglobina + VCM + ferritina + transferrina/saturação da transferrina. Esta combinação permite distinguir melhor entre uma simples variação isolada e um problema real do metabolismo do ferro.

4. Vitamina B12 e ácido fólico: importantes, mas não para todos

A vitamina B12 e o ácido fólico participam na formação dos glóbulos vermelhos e no funcionamento do sistema nervoso. São especialmente importantes se segues uma dieta vegan ou vegetariana, tens problemas digestivos ou de absorção, ou apresentas alguma alteração no hemograma. A vitamina B12 merece especial atenção, uma vez que a deficiência pode provocar anemia e sintomas neurológicos.

Em atletas com uma alimentação adequada, não há razão para tentar elevar os níveis indefinidamente através de suplementos. Por outras palavras: o objetivo é corrigir uma deficiência, e não conseguir números espetaculares nos exames.

5. Vitamina D: mais relacionada com a saúde do que com o "melhor desempenho"

A vitamina D tornou-se um dos parâmetros de destaque nos exames laboratoriais para atletas. E faz sentido monitorizá-la, sobretudo em atletas com pouca exposição solar, que treinam sobretudo em ambientes fechados, seguem dietas restritivas ou têm um historial de problemas ósseos.

A vitamina D desempenha um papel importante na saúde óssea e muscular; assim, uma deficiência pode ser relevante para um atleta. No entanto, ter níveis de vitamina D mais elevados do que outro atleta não significa automaticamente um desempenho superior. Por isso, não devemos tratá-la como um marcador de desempenho, mas sim, fundamentalmente, como um indicador de saúde e de suficiência nutricional.

As avaliações laboratoriais desportivas incluem a vitamina D, o cálcio e os marcadores do metabolismo ósseo, especialmente quando existe o risco de lesões de stress.

6. Glicose, perfil lipídico e função renal: a saúde também importa

Um atleta continua a ser uma pessoa que necessita de cuidar da sua saúde cardiovascular e metabólica. A glicose em jejum, o colesterol total, o HDL, o LDL e os triglicéridos podem fazer parte de um exame geral, especialmente se houver antecedentes familiares, excesso de peso, hipertensão ou outros fatores de risco.

É também interessante verificar a função renal através de parâmetros como a creatinina e a ureia, embora o atleta apresente uma particularidade neste aspeto: uma pessoa com muita massa muscular ou que tenha treinado recentemente pode apresentar níveis de creatinina mais elevados sem que isso indique necessariamente uma doença renal.

O mesmo acontece com a ureia, cujos níveis podem aumentar devido à elevada ingestão de proteínas, desidratação ou uma carga de treino intensa. Por este motivo, um resultado ligeiramente fora do intervalo de referência não deve ser interpretado automaticamente como patológico.

7. Transaminases: cuidado para não te assustares com níveis elevados de AST

AST, ALT, GGT e outros marcadores hepáticos surgem habitualmente nos exames laboratoriais. No entanto, o atleta apresenta uma particularidade importante: algumas enzimas que associamos ao fígado também estão presentes nos músculos. Após um treino intenso, especialmente de força, os níveis de AST e de CK (creatina quinase) podem aumentar em consequência do stress muscular.

Isto explica porque é que um exame de sangue realizado logo após um treino intenso pode apresentar resultados muito diferentes de outro feito após vários dias de recuperação. Num estudo com atletas de elite, as alterações mais frequentes nos exames de rotina foram precisamente o aumento de AST, fosfato, CK, ureia e bilirrubina, sendo que muitas destas alterações não tinham relevância clínica.

A lição é clara: não devemos interpretar as nossas análises como se fossem as de uma pessoa sedentária que não treina há vários dias.

8. CK: serve para saber se já conseguimos recuperar

A creatina quinase (CK) aumenta quando há lesão ou stress muscular. Pode ser útil para interpretar a resposta a uma carga de treino, especialmente se existirem valores individuais de referência anteriores. No entanto, não funciona como um "semáforo" universal. Um nível elevado de CK não significa necessariamente que estejamos em *overtraining*, nem um nível normal garante que conseguimos recuperar totalmente. As diferenças entre indivíduos são enormes, e o exercício recente exerce uma influência significativa no resultado.

Se fizeres uma análise ao sangue entre 24 a 48 horas após participar num Granfondo e a equipa médica não soubesse que participaste nesse evento, provavelmente internavam-te. Os níveis de creatina quinase (CK) podem disparar drasticamente após um evento duro e longo como um Granfondo, atingindo valores habituais entre 10.000 e 20.000 U/L (unidades por litro), em comparação com um intervalo de referência normal que geralmente se situa entre 25 e 200 U/L. As recomendações atuais sobre os biomarcadores de carga de treino alertam precisamente para esta dificuldade: os valores devem ser interpretados com base no nível individual e no contexto, e não apenas em intervalos populacionais de referência.

9. Proteína C-reativa: existe inflamação?

A PCR pode ser utilizada como marcador de inflamação. Pode ser interessante quando existem sintomas, infeções, lesões ou uma suspeita clínica concreta. No entanto, não é um marcador direto de "recuperação". Uma pequena elevação pode ter múltiplas explicações, incluindo uma resposta ao exercício. Por este motivo, não faz muito sentido realizar um exame PCR após cada semana de treino para decidir se é necessário descansar.

10. E a testosterona, o cortisol e outras hormonas?

É aqui que muitos exames laboratoriais desportivos começam a transformar-se numa coleção de números difíceis de interpretar. A testosterona, o cortisol, o TSH, o T3, o T4 e outras hormonas podem ser muito úteis quando existe uma questão clínica concreta. Mas não devem ser utilizados como uma espécie de marcador diário de "anabolismo", "stress" ou "fadiga".

O cortisol, por exemplo, varia de acordo com a hora do dia, o stress, o sono e o exercício. A testosterona também apresenta variações importantes. Além disso, em atletas com baixa disponibilidade energética, pode haver alteração de diferentes eixos hormonais. Neste contexto, a análise laboratorial pode fazer parte de uma avaliação mais vasta da RED-S (Deficiência Energética Relativa no Desporto), mas nunca deve ser interpretada de forma isolada. O consenso do Comité Olímpico Internacional sobre a RED-S recomenda a integração de indicadores clínicos, fisiológicos e de desempenho.

Então, o que deve um atleta solicitar?

Para uma pessoa saudável que treina regularmente, um ponto de partida razoável seria:

Hemograma completo

  • Hemoglobina
  • Hematócrito
  • VCM
  • Leucócitos
  • Plaquetas

Ferro

  • Ferritina
  • Ferro
  • Transferrina e/ou saturação da transferrina

Bioquímica

  • Glicose
  • Creatinina
  • Ureia
  • Eletrólitos
  • Perfil hepático

Metabolismo

  • Colesterol total
  • HDL
  • LDL
  • Triglicéridos

Dependendo do atleta

Adicionar vitamina D, vitamina B12, folato, TSH, PCR, CK ou outros parâmetros quando existem fatores de risco, sintomas, uma dieta específica, carga de treino elevada ou indicação médica.

Com que frequência se devem fazer exames?

Não existe uma frequência universal. Um atleta saudável pode realizar exames periódicos durante as suas avaliações médicas, enquanto alguém com uma deficiência de ferro, sintomas, alterações importantes na dieta ou uma carga de treino muito elevada pode necessitar de exames mais frequentes. E há algo ainda mais importante do que a frequência: repetir os exames em condições comparáveis. Se quisermos acompanhar a evolução de um atleta, é muito mais útil comparar resultados obtidos em circunstâncias semelhantes do que ficar obcecado com o intervalo de referência do laboratório.

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