Está instalada a polémica entre Bruyneel e Alberto Contador

O ex-diretor da Astana desmente a versão de Alberto Contador nas redes sociais, dizendo que não fez nenhum favor a Lance Armstrong. Contudo, confirma que sentiu dificuldades devido ao ego dos dois ciclistas no seio da equipa.
Revista Ciclismo a fundo / EFE -
Está instalada a polémica entre Bruyneel e Alberto Contador
Está instalada a polémica entre Bruyneel e Alberto Contador

Continua a acesa troca de palavras entre Alberto Contador e Johan Bruyneel onze anos depois de terem ganho a Volta a França de 2009, com as cores da Astana. A relação cáustica entre Lance Armstrong e Alberto Contador, que é conhecida de todos, é a origem da polémica, tendo a mesma ganho um novo ímpeto nos últimos dias quando o ex-corredor espanhol fez algumas declarações (ao youtuber espanhol Valentí San Juan) onde abordou a sua complicada relação com Armstrong e assegurou que sentiu no seio da equipa alguns obstáculos, em favorecimento da liderança de Armstrong.

Após estas declarações, Johan Bruyneel anunciou que responderia a Contador e que iria revelar factos desconhecidos que aconteceram durante aquela edição da Volta a França. A resposta do ex-técnico belga chegou ontem, através do podcast "El Leñero", com os jornalistas Victor Hugo Peña, Mario Sabato, Oscar Restrepo e Emanuel Sabato, mas não foi tão contundente como alguns esperaríam nem revelou nada que não soubéssemos.

Bruyneel, basicamente, limitou-se a defender a sua posição, assegurando que não houve nenhuma conspiração contra o ciclista espanhol, confirmando as dificuldades que teve para gerir a luta entre os dois egos (Lance/Alberto) dentro da equipa Astana. "Cada um tem a sua versão, mas senti-me atingido. Não gostei do tom que usou para dar a sua versão do Tour de 2009", referiu.

O belga fez questão de rever os comentários de Contador: "Não quero atacá-lo, foi um grande campeão, o melhor por etapas da sua geração na primera metade da sua carreira, mas depois teve a infelecidade de se deparar com o Froome. Mas para mim foi um dos melhores da história em corridas por etapas".

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"NÃO QUERIA PERDER O TOUR POR NOSSA CULPA"

O então responsável da Astana admitiu que soube de antemão que seria um Tour diferente dentro da equipa, já que o objetivo era ganhar e, por sua vez, gerir os dois egos dentro da equipa. "Só queria ganhar aquele Tour, não queria perder, ainda por cima devido a um problema no seio da equipa. Eu era o diretor da Astana, não do Contador nem do Armstrong, mas o nosso trunfo era o Contador pois era o melhor, ganhou o Tour de 2007 e o Giro e a Vuelta de 2008. Disse isso ao Armstrong numa reunião, e ele disse-me, aos 38 anos, "veremos".

Acerca da quarta etapa daquela edição do Tour, quando o Contador ficou atrasado devido a um corte no pelotão, tendo perdido 40 segundos face ao grupo principal do Armstrong, o técnico belga disse que "a situação era boa para a equipa, já que tínhamos quatro corredores. Fomos para a frente sem o Contador, e qualquer um teria feito o mesmo". Após explicar que não tinha levado o Benjamín Noval, homem de confiança de Contador, por questões técnicas, Bruyneel salientou a dificuldade que sentiu ao ter de lidar com dois egos que considerou "dois machos alfa". "A relação entre eles não foi fácil, apercebi-me disso depois do estágio em Teide. No primeiro dia, ao pequeno-almoço, nem sequer se cumprimentaram. Contudo, aquele Tour não foi tão dramático como a imprensa espanhola descreveu. Estou decepcionado com a entrevista do Alberto Contador".

Bruyneel, que atualmente reside em Madrid, explicou ao El Leñero, que tanto Contador como Armstrong "eram dois vencedores de carácter complicado. A grande diferença era que com o Armstrong tinha uma relação pessoal próxima e com o Contador foi mais profissional, mas nenhum dos dois era fácil", acrescentou o belga.

Está instalada a polémica entre Bruyneel e Alberto Contador

Contador referiu na entrevista que teve de comprar do seu bolso uma roda lenticular para o contrarelógio do Mónaco, já que a equipa não tinha esse material à sua disposição, ao contrário de Armstrong, que teve acesso a todo o material. Bruyneel desmente esta versão: "Havia material de sobra para todos, pois tínhamos 40 rodas. Naquela temporada o Armstrong correu de borla porque não tínhamos dinheiro para lhe pagar. Vestiu a camisola da Astana, mas tinha liberdade para correr com a sua bicicleta e com os seus componentes de design próprio. Queria internacionalizar a sua fundação, e até chegou a leiloar a sua bicicleta que levou ao pódio em Paris por 500.000 dólares". Acrescentou ainda: "Se o Alberto pensou que as rodas não eram boas e queria outras, isso não sei, não conheço todos os detalhes".

Contador também assegurou que a sua bicicleta ficava no quarto do seu mecânico, facto que Bruyneel não gostou. "A bicicleta estava com o seu mecânico, e isso só acontecia por paranóia, porque ele achava que havia perigo. Não cabe na cabeça de ninguém que alguém da equipa fosse fazer algo para danificar a bicicleta do Contador. É ridículo. O Alberto isolou-se por desconfiança contra mim, mas garanto que ninguém na equipa iria fazer nada à sua bicicleta".

Bruyneel abordou ainda a 7ª etapa em Andorra. "Eu não disse que devíamos adotar um ritmo tranquilo. Pensei no objetivo geral, que era a amarela em Paris, e disse que devíamos poupar as nossas energias e não queria ter o peso da amarela a obrigar-nos a desgastar sem necessidade. Contudo, nunca disse que devíamos ir devagar nem a um ritmo tranquilo".

"Se ele se sentia tão forte devia ter-me dito que não estava de acordo e que gostaria de abordar a etapa de outra forma, mas não, calou-se e em Ordino atacou sem avisar os seus colegas enquanto o Kloeden puxava. Não avisou ninguém e a equipa ficou a perder", explicou Bruyneel.