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Foi com enorme surpresa que recebemos um convite misterioso para nos deslocarmos a Espanha para a apresentação de uma nova bicicleta. Primeiro tivemos de confirmar a nossa disponibilidade para aquelas datas e a seguir assinar um acordo de confidencialidade com a Honda! Logo aí ficámos apreensivos! O que será que aí vem? Quando nos aconselharam a levar joelheiras, roupa de BTT, logo desconfiámos que não seria uma coisa meiga… Mas estávamos longe de imaginar as formas desta RN0, claramente inspiradas pelas motos, tal como a RN01 já tinha sido.
VÊ AQUI O VÍDEO DO NOSSO TESTE
A Honda é uma marca conhecida sobretudo pelos seus automóveis e motos que aliam performance a fiabilidade e rigor mecânico. Mas o mais curioso é que este construtor japonês, o maior do mundo nas motos, começou há 80 anos precisamente a fabricar bicicletas com um pequeno motor de combustão adaptado.
Talvez inspirado nesse facto, surge agora a RN0, a primeira bicicleta elétrica da marca nipónica.
Claro que passaram 20 anos e se a RN01 deu que falar, pelo exotismo do seu design e a secreta caixa de velocidades interna, já a RN0 surge numa época em que as mudanças automáticas ou poderosos e compactos motores são uma realidade, e onde várias marcas de motos entretanto se aventuraram no mundo das bicicletas.
DUPLO SENTIDO
O quadro desta Honda tem não só o papel de ser o “centro” desta bicicleta, enquanto componente principal onde todos os outros se ancoram, como é também a “peça” principal na sua identidade. Os engenheiros da Honda tinham uma visão clara: criar uma bicicleta única, com o legado Honda, e ao mesmo tempo com um comportamento natural. E o desenho monocoque cumpre com ambos os requisitos. O design é claramente inconfundível. E a sua construção revela uma série de cuidados no sentido de alcançar o objetivo: criar um quadro fiável e robusto mas, ao mesmo tempo, capaz de se “moldar” ao terreno para tornar a pilotagem mais natural. Foi nesse sentido que veio ao de cima o conceito de deformação programada, um pouco como em bicicletas rígidas, mas também de suspensão total, em que o carbono é manipulado de maneira a “ceder” em certas situações e direções de modo a tornar a pilotagem mais agradável e menos brusca. Este quadro é feito à mão e o processo demora cerca de 60h!
Segundo os técnicos, este quadro terá então um papel mais ativo ainda, além das suspensões, ao permitir alguma flexão de forma a tornar a pilotagem mais suave e natural, até porque um monocoque desta envergadura pode ser demasiado rígido e difícil de controlar em certas situações.
No seguimento do monocoque, atrás vamos encontrar um “triângulo traseiro” que mais se parece com um braço oscilante de uma moto, e que a Honda batizou de Gullwingw Swingarm, ou Gullarm. O seu formato prolonga a genética motociclista, mas o seu funcionamento respeita o que se quer numa bike, um sistema de pivôs capaz de, por um lado, oferecer sensibilidade e progressividade e, ao mesmo tempo, evitar um excesso de movimento do amortecedor induzido pela pedalada, especialmente quando assistida por um motor desta potência.
O RIGOR DE SEMPRE
Este projeto começou há cerca de 6 anos, quando surgiu a ideia de regressar às bicicletas. E desde então muitos estudos foram feitos, parcerias foram estudadas, e inclusive um protótipo ainda com quadro de alumínio foi mostrado no Tokyo Mobility Show em 2023.
Após reunir com alguns potenciais parceiros, surgiu a parceira com a Rotwild para a conceção do quadro. É certo que a Honda é um gigante, mas precisava de um parceiro que soubesse desenvolver uma bicicleta, com experiência de materiais, geometria e suspensões, e não apenas de uma empresa capaz de fabricar um molde com base em “desenhos”! Seguindo esse mesmo princípio, também o outro grande componente desde projeto foi confiado a um especialista: falamos do motor Shimano cujo nome ainda não podemos divulgar à data da publicação deste artigo, mas podemos avançar que pertencerá à família EP e conta com 750w, 100NM de torque, uma bateria de 720Wh que pode ser removida e modo inteligente de que já falaremos mais à frente.
PESADA, MAS DIVERTIDA
Com um quadro destes, devidamente reforçado, e uma seleção de equipamento virada para um uso trail/All mountain, o resultado final é um peso próximo dos 23.5kg. Portanto, aqui faz mesmo falta um motor destes. Em termos de assistência, tem 3 modos. E na verdade, chega e quase sobra. É que entre o Eco e o Boost, existe o Trail +, um modo inteligente, que se comporta de acordo com a necessidade. Tanto se pode assemelhar ao Eco quando vamos “nas calmas” como de repente ganha vida quando o terreno e o rider assim exigem, aproximando-se dos níveis de potência do modo Boost. Regra geral, este modo quase que servirá como único para muita gente que não se quer preocupar em alterar o nível de assistência conforme o terreno.
No entanto, nos vários testes que fizemos nesta Honda, o modo ainda precisava de ajustes, algo que poderemos fazer logo que tenhamos a app para isso. Uma função que não será para todos os gostos é o Assist Carry Over, que mantém o motor a oferecer suporte durante uns instantes depois de parares de pedalar. Pode ser útil se quisermos que o motor continue e empurrar a bike num momento em que paremos de pedalar devido ao piso irregular. Mas, na minha opinião, requer habituação e torna a pilotagem pouco intuitiva, pois obriga-nos a parar de pedalar muito antes de uma curva ou do ponto em que queres parar, caso contrário corres o risco de não conseguires curvar/parar devido ao coice do motor.
ÁGIL E COMPOSTA
E voltando ao assunto do peso, é certo que 23.5 kg não passam despercebidos. No entanto, em andamento, fiquei surpreendido com vários aspetos. A agilidade não sai prejudicada. As suspensões aguentam bem e nunca cheguei a esgotar o curso, ainda que nestes trilhos houvessem oportunidades para tal (já aqui andei com outras bicicletas que esgotavam). Na frente a Honda escolheu e bem uma Fox Float 36 Factory Kashima, enquanto que atrás o amortecedor é um Float X Factory Kashima.
Esta RN0 conta com 160mm de curso na frente e 145mm atrás, que na verdade são suficientes para o uso bastante agressivo ao qual estas bicicletas foram sujeitas nos famosos trilhos de Enduro de Santa Coloma (Girona) nas nossas mãos. Uma das soluções que contribui para esta agilidade é o fato de ser um setup mullet, com 29’’ à frente e 27.5’’ atrás.
Mesmo a nível de travagem, não senti que o peso excessivo nos fizesse perder a linha ou falhar a entrada na curva por excesso de distância para adequar a velocidade. Os potentes XT de duplo pistão com discos de 203 mm são essenciais nesse sentido!
A verdade é que em termos dinâmicos esta Honda está muito equilibrada, é ágil, e muito intuitiva, o que se torna importante tendo em conta que parte dos potenciais compradores desta máquina serão utilizadores de motos Honda que se podem estar a principiar no BTT e precisam de uma bicicleta que “descomplique” a pilotagem.
AUTO-TUDO!
E outra coisa que descomplica é o Auto-Shift. O sistema de mudanças automáticas da Shimano já amadureceu e, para quem não quer ter de pensar muito, é uma ferramenta muito útil. Aliás, acabei por passar mais tempo neste modo do que no Manual, pois assim podia-me focar noutros aspetos da condução. E aqui, o XT Di2 de 12 velocidades funciona sem qualquer hesitação e com a fiabilidade que conhecemos.
Os ajustes através da app vão ser simplificados e no próprio ecrã LCD da e-bike podemos ajustar os parâmetros, regulando, por exemplo, em que zona de cadência gostamos de pedalar, para que o sistema vá passando as mudanças de maneira a nos manter na nossa zona escolhida.
Se combinarmos isto com o tal modo trail + que também se adapta ao terreno e ao andamento, estamos perante uma máquina em que basta dar aos pedais e focar no trilho.
QUAL É O PÚBLICO-ALVO DESTA HONDA?
O objetivo da marca não é ombrear com o que de melhor se faz no segmento, por marcas com larga experiência. Aqui a vontade foi a de criar uma e-bike distinta das demais, com o legado Honda, a imagem de marca e um apelo forte a quem gosta de duas rodas, mas com motor… a gasolina! Sim, esta e-bike foi pensada para aquela legião de utilizadores de motos Honda que podem ter interesse e passar para o mundo das bicicletas. Aliás, numa fase inicial, vai ser comercializada apenas em concessionários da marca, e não em lojas de bicicletas.
Isto não quer dizer que a Honda não possa ter sido concebida para ser aliciante a riders que já conhecem o conceito de e-bike e possam querer ter algo exclusivo. E aqui temos de fazer uma distinção.
A escolha de componentes visa uma utilização All Mountain, Trail, com aros H1900 e pneus Schwalbe Albert Evo com carcassa Trail. Esta escolha visa manter o peso contido, que já é considerável. No entanto, dadas as capacidades que o quadro e as suspensões têm, esta bicicleta podia ser ainda mais capaz e “bruta” se os pneus e as rodas estivessem ao mesmo nível. Daí que irá agradar aos menos agressivos: o material vai aguentar. Quem quiser tirar muito proveito desta e-bike e abusar sem medo, poderá investir em pneus com carcaça de DH. Inclusive, este quadro permite alguma personalização, podendo o ângulo de direção ser ajustado em +- 0.5º e o próprio reach aumentado/reduzido em 5mm!
Para já ainda não temos mais detalhes, mas em breve poderás ir ao site da Honda saber mais. E também em breve a Shimano irá tornar público o nome deste motor.
O que podemos adiantar já é que a Honda não deixou os seus créditos por mãos alheias e criou uma máquina distinta, com uma identidade muito própria e um comportamento saudável, ágil e equilibrado.
Existem algumas melhorias que podem ser feitas ao nível dos componentes, para quem já é mais experiente e sabe o que quer, e a termos de apontar um defeito será o peso total da bicicleta, resultado de um quadro muito robusto. Quem sabe se em gerações futuras não poderá sofrer uma dieta, ainda que numa elétrica deste escalão o peso não seja assim tão importante.
Falta agora sabermos quando é que a Honda iniciará a venda e qual será o preço.











