Sabes quem faz anos hoje? Sérgio Paulinho! Revê a sua carreira

Revemos a carreira profissional do ciclista português que conta com 17 temporadas nas pernas. Sérgio Paulinho, medalhado olímpico com a prata em Atenas 2004, também ganhou etapas no Tour e na Vuelta tendo sido também companheiro de Alberto Contador na Astana, Saxo-Bank e Tinkoff.
Rafa Simón, CSR e Carlos Pinto -
Sabes quem faz anos hoje? Sérgio Paulinho! Revê a sua carreira
Sabes quem faz anos hoje? Sérgio Paulinho! Revê a sua carreira

Há uma regra que não está escrita nos manuais de ciclismo, mas que nos diz que os mais fortes ganham no asfalto. E vemos que são maioritariamente as equipas mais fortes, as do World Tour, as que estão nas posições de liderança em cada corrida em que participam. Porém, há exceções, e o ciclismo tem muito respeito por aqueles ciclistas que apesar de pertencerem a equipas de nível inferior, apresentam pontos altos na carreira. O mais certo é nem conhecermos todos os grandes feitos de alguns ciclistas consagrados ou de muitas das jovens promessas de hoje, que dão os primeiros passos nas grandes equipas.

No caso de Sérgio Paulinho, como primeiro grande resultado, destacamos a medalha bronze trazida do Campeonato do Mundo de contrarrelógio no escalão sub-23 em 2002. Outra das suas grandes histórias começou quando recebeu a chamada da Selecção Nacional para participar nos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004 em substituição de José Azevedo, que depois de terminar em quinto lugar no Tour desse ano, se sentia demasiado cansado para conseguir fazer uma grande representação do país. Sérgio, o então campeão nacional de contrarrelógio, aceitou prontamente. Apesar do calor daquele dia da competição e de não estar na lista dos favoritos, foi o último que Paolo Bettini deixou para trás. Ambos encararam o último quilómetro com os olhos postos um no outro. Bettini, o experiente, o imbatível naquele ano em cada competição que disputou, usou a sua experiência para se superiorizar a Sérgio, que tentou arrancar ao sprint a 300 metros da meta. Não conseguiu vencer e Paolo Bettini viria a ser campeão olímpico, ficando o português com a prata e Axel Merckx com o bronze. A medalha não mudaria a sua vida.

No ano seguinte, apesar de ter outras propostas, decidiu assentar na equipa espanhola Liberty Seguros de Manolo Sainz. Este, que tinha visto Sérgio a competir anteriormente em Portugal, quis contratá-lo uns meses antes e houve um acordo verbal: “Manolo, não se preocupe, a minha medalha não vai mudar nada. Confiou em mim antes disto tudo e irei retibuir” disse. A decisão acabou por ser bem sucedida e o director de Cantábria descobriu um homem de palavra, de trato simples e certeiro nas oportunidades que lhe eram concedidas. Em troca, Sérgio aprendeu com grandes ciclistas como Roberto Heras, Igor González Galdeano, Ángel Vicioso ou Marcos Serrano. Ao mesmo tempo outros jovens como Alberto Contador ou Luis León Sánchez iam aos poucos dando nas vistas.

Foi na Liberty Seguros em 2006 que conseguiu a sua primeira grande vitória fora de Portugal. Levantar os braços na Volta a Espanha desse ano foi um ponto alto da carreira deste homem que se dispusera a trabalhar para os grandes líderes que cruzavam o seu caminho. E sem se dar conta, um deles, talvez o mais importante, estava mais perto do que poderia imaginar. No ano seguinte depois de assinar pela Discovery Channel de Johan Bruyneel, iria tornar realidade um dos seus sonhos, o de participar na Volta a França! E Bruyneel era um homem que o motivava, a sua leitura de corrida era perfeita e sabia tirar o melhor de uma equipa com motivação pessoal para cada ciclista. Naquele ano de 2007 Alberto Contador estava em muito boa forma e a equipa ciente disso. Nesse Tour houve momentos duros como a queda de Benjamín Noval, que era um ciclista destinado a proteger Alberto Contador, no entanto, Sérgio Paulinho tal como a restante equipa conseguiram apoiar o homem de Madrid até ao fim permitindo-lhe chegar de amarelo ao fim da competição.

Dois anos depois o cenário mudou com o regresso de Lance Armstrong ao ciclismo depois de ter estado retirado. Queria voltar a ganhar o Tour e sem hesitações foi falar com Bruyneel, seu antigo director e reentrou na equipa. Alberto, firme aspirante a um novo título no Tour e o americano chocavam agora nos mesmos interesses, mas Sérgio tal como os restantes companheiros de equipa souberam fazer frente aos momentos de tensão para que se resolvesse tudo. Sabes quem faz anos hoje? Sérgio Paulinho! Revê a sua carreira

Na 10ª etapa da Volta a França, Sérgio Paulinho obteve a vitória mais importante da sua carreira

No ano seguinte, já em 2010, nova mudança. A equipa trabalhava para Armstrong, mas algumas quedas deixaram-no fora das opções do pódio. Bruyneel sabendo que a sua equipa ficara sem referências, incentivou os seus ciclistas a tentarem uma vitória de etapa com fuga. Antes da décima etapa com final em Gap, falou com Sérgio: “todos vão tentar, mas acho que se adapta muito bem a ti. Tenta!” desafiou-o. E naquele dia Sérgio conseguiu arrancar do pelotão no momento certo. Em cada ponto endureceu o ritmo até se isolar dos companheiros de fuga até que apenas sobrou um para medir forças com ele. Vasil Kirienka era um daqueles ciclistas que nunca muda de expressão e que disfarçam o esforço escondendo-se atrás dos óculos de sol. Mas Sérgio já não era aquele ciclista inseguro que enfrentou Bettini nos Jogos de 2004 e soube manter a calma e impulsionar a sua bicicleta até levantar os braços à frente do bielorrusso.

Em 2012 assinou pela Saxo Bank e trocou os ensinamentos de Bruyneel pelos de Bjarne Rijs. O novo director desportivo dinamarquês era rígido, daqueles que olhavam fixamente. Sérgio sentia que eram tratados com dureza, mas com o objetivo de conviverem com a pressão, responsabilidade e união entre todos. No entanto, Sérgio sabia que havia um ciclista capaz de suavizar o carácter rígido de Rijs e esse corredor era Alberto Contador. Mais tarde, quando sentiu que as expectativas para continuar a competir no escalão World Tour se estavam a esgotar para ele, Sérgio quis concretizar mais um desejo na sua carreira, o de finalizar em Portugal onde tudo começou, a convite de Américo Silva. Pelo meio, ficou um certo amargo de boca, pois Alberto Contador havia assegurado ao luso que iria com ele, qualquer que fosse a equipa. A verdade é que Contador assinou pela Trek e Sérgio nessa altura ficou sem espaço no World Tour. Assinou pela Efapel, sendo o braço direito de Joni Brandão na atualidade. Já não disputaria mais o Tour ou a Vuelta mas encantar-se-ia com a sua Volta a Portugal em Bicicleta. Já não ganharia etapas em voltas de três semanas, mas voltou a sentir em 2019 a mesma emoção que percorreu o seu corpo em Gap ou em Santander, quando subiu ao pódio sendo terceiro classificado da geral no Grande Prémio Joaquim Agostinho.

O ciclismo em Portugal não o esquece. E os grande feitos do Sérgio, que a partir de hoje faz parte dos “entas” (completa 40 anos) ainda são lembrados com grande entusiasmo. Parabéns, amigo.