Temos de confessar que temos na nossa redação uma S-Works Aethos de primeira geração. A sua missão é ser a base para testarmos vários componentes e acessórios, como rodas, transmisões, etc.
Escolhemos uma Aethos porque é uma bicicleta esteticamente discreta, compatível com componentes tradicionais - como espigões de selim, avanços e guiadores - e com uma geometria similar à da bicicleta que usamos nas provas master.
Durante todo este tempo ouvimos vários comentários e perguntas sobre a "nossa" Aethos. A maioria refere que gosta da sua estética clássica e decoração minimalista, outros perguntam que marca e modelo é - acham que na Specialized a única bicicleta de estrada é a Tarmac e, apesar de não estar montada com uma transmissão topo de gama nem componentes peso pluma - pesa 7,1 kg no tamanho 56 com pedais, dois porta-bidons e suporte para ciclocomputador -, é uma bicicleta bastante leve.
O conjunto formado pelo quadro, forqueta e espigão de selim Alpinist - renovámos os restantes componentes ao longo do ano - resistiram sem problemas aos maus tratos infligidos durante milhares de quilómetros.
A nova Aethos 2 tem uma geometria diferente e admitimos que é precisamente aquilo que aqueles que não competem exigem. Isto significa que a maioria das pessoas vai considerar esta bicicleta mais confortável do que uma réplica das bicicletas usadas pelos profissionais. É um facto e ninguém duvide disso.
"A sua estabilidade é bastante apreciada em situações delicadas"
RODAS SUPERLEVES
As novas rodas Roval Alpinist CLX II pesam somente 1.111g o par, com fitas de aro. Este peso foi verificado na nossa balança e deve-se, sobretudo, aos raios em carbono termoplástico, com terminais em titânio, cabeças em alumínio, rolamentos cerâmicos DT Swiss SINC e cepo ratchet.
Quanto aos pneus, traz uns S-Works Turbo TLR (tubeless) de 28 mm, embora de fábrica venha com câmaras de ar pré-instaladas em TPU (termoplástico uretano) da Specialized, que são muito leves - 38g cada -, mas confessamos que tivemos alguns problemas com a união entre a válvula e a própria câmara. Como sempre, aconselhamos adotar o sistema tubeless - sem câmara de ar e adicionar selante -, colocando umas válvulas específicas e líquido de boa qualidade. A nova Aethos permite montar pneus de até 35 mm, permitindo o uso de pneus mais largos, o que aumenta o conforto e a aderência em curva.
O selim e o espigão são de luxo. Começando pelo selim, trata-se do S-Works Power Mirror com parte superior impressa em 3D, com carcaça e carris em carbono. Tem 143 mm de largura e pesa 190g. É um dos nossos selins favoritos e no mercado é dos mais apreciados pelo conforto proporcionado.
Quanto ao espigão, trata-se do levíssimo Roval Alpinist de carbono com parafusos em titânio. É 9g mais leve do que a versão anterior graças à base de apoio ao selim. Tem um diâmetro de 27,2 mm, portanto em caso de reposição não faltam alternativas. A abraçadeira que mantém o espigão no lugar também é tradicional, mas o parafuso é em titânio.
TOPO DE GAMA
A S-Works - ou seja, a gama superior da Specialized - tem duas montagens cuja única diferença reside na transmissão: Sram Red AXS ou Shimano Dura Ace Di2. A versão com Sram é 50g mais leve do que a com Shimano. Nós testámos a versão montada com a marca japonesa, que continua sem renovar o seu grupo topo de gama desde 2021, embore continue a ser a referência em termos de precisão, rapidez e fiabilidade. Vem de origem com cremalheiras 52/36 e cassete 11-30, mas, pelo menos do nosso ponto de vista, o público-alvo a quem se destina esta bicicleta certamente preferiria um 11-34, para as subidas mais duras.
Embora inclua medidor de potência 4iiii Precision Pro, que mede os watts nos dois cranques e é bastante fiável, a verdade é que se no futuro quisermos mudar de marca ou montar uns cranques sem potenciómetro não o podemos fazer.
OCULTOS
O novo guiador integrado Roval Alpinist Cockpit II também ajuda a manter baixo o peso total da Aethos 2, dado que a primeira geração vinha montada com um avanço e guiador separados. Pesa 270g - na medida 400x100 mm - e tem uma ergonomia superior, absorvendo melhor as irregularidades do terreno.
A principal alteração estética da nova Aethos 2 está na parte frontal, dado que já não estão visíveis as mangueiras dos travões - e os cabos das mudanças nas versões que não eram S-Works -. Agora estão ocultos internamente no tubo da direção e guiador, mas na zona do avanço são guiados pela parte inferior, o que facilita a manutenção ou uma possível substituição do avanço e guiador.
GEOMETRIA
Se a Aethos original tinha um comportamento claramente competitivo - de certa forma semelhante à Tarmac -, a segunda geração está num ponto intermédio entre uma granfondo e a primeira Aethos. Agora o stack - altura da direção - é 15 mm mais elevado, o reach - alcance do guiador - é 4 mm mais curto, o ângulo de direção é 0,5º mais relaxado, mas é ligeiramente mais comprida entre eixos e tem um pedaleiro mais baixo, para compensar o uso de pneus mais largos. O resultado é uma Aethos 2 com uma posição de condução mais confortável e uma estabilidade extra que apreciamos bastante em situações delicadas - por exemplo, em descidas com vento lateral - mas sem perder o aprumo e a precisão em curva.
Pontos positivos: Poucas bicicletas igualam o seu peso; Quadro, componentes e transmissão de elevada qualidade; Geometria menos exigente; Geometria clássica e discreta e finalmente com cablagem oculta.
Pontos a rever: Só podemos escolher o tamanho; Custa o mesmo que uma Tarmac SL8 topo de gama.
REFERÊNCIA
A Aethos original foi apresentada no final de 2020 e rompeu com a tendência vigente nessa altura que era criar bicicletas cada vez mais aerodinâmicas. Com a Venge - na terceira e última geração - a Specialized tinha um modelo cem por cento aerodinâmico, mas como foi descontinuada nesse mesmo ano, a Tarmac SL7 converteu-se no modelo aero mais leve da marca.
Nessa altura, pareceu algo arriscado, mas outras marcas acabaram por seguir as pisadas da Specialized, descontinuando os seus modelos aerodinâmicos e apostando em bicicletas mais leves, embora menos aero. Havia espaço no catálogo da Specialized para um modelo diferente dos demais e que rompesse as regras estabelecidas, mais concretamente as estabelecidas pela UCI no que ao peso diz respeito. A Aethos bateu o recorde de leveza - o quadro e a forqueta no tamanho 56 pesavam na versão para discos 585g e 270g , respetivamente - e embora tenha herdado a geometria da Tarmac, o seu design intemporal suplanta as vantagens da aerodinâmica.
CONCLUSÃO
Os ciclistas que buscavam uma bicicleta discreta como a Aethos original, livre de complicações mecânicas ou aerodinâmicas, ou o modelo mais leve disponível — ou ambos — podem ter-se surpreendido ao descobrir que precisavam esforçar-se mais do que esperavam para dominá-la e adotar uma posição de condução menos confortável devido à sua geometria voltada para o desempenho. Paradoxalmente, os modelos S-Works não podiam ser usados em competição, devido ao peso inferior a 6,8 kg. Guiada por milhares de dados obtidos nos testes Body Geometry, a Specialized suavizou o caráter da Aethos — e atualizou ocultando as mangueiras de travão, aumentando o espaço para pneus e adotando o sistema UDH — para satisfazer aqueles que não querem abrir mão de uma bicicleta muito leve, de alta qualidade, com desempenho impecável e estética clássica e minimalista... mas optaram por não competir para desfrutar das suas voltas sem pressão.
