Durante mais de 20 anos assistimos ao surgimento e desaparecimento de algumas equipas de ciclismo em Portugal. O conceito das equipas lusas baseia-se na continuidade e as poucas que desapareceram do panorama nacional abandonaram devido a problemas com dopagem e algumas por falta de apoios.
O modelo de negócio do ciclismo baseia-se nos patrocínios, ocupando mais de 95% das receitas das equipas. O resto vem de merchandising, prémios e pouco mais. Num país pequeno, com uma economia limitada, não existem muitas empresas com capacidade financeira que permita apoiar um projeto WorldTour. Este é o primeiro ponto que tem de ficar bem presente para que possamos perceber o panorama geral.
As equipas nacionais estão baseadas em clubes que, por sua vez, adotam denominações comerciais que mudam anualmente, consoante os patrocínios. É um mercado volátil em que nos anos menos "apertados" as equipas conseguem sobreviver, e nos anos mais críticos (este ano é disso exemplo), as contas apertam e as estruturas vão ter de se desenrascar com o pouco que conseguem angariar.
Temos estruturas com pouco mais de 150.000 euros por ano, enquanto a mais "apetrechada" tem um orçamento alegadamente a rondar um milhão de euros por ano. Estes valores não são divulgados e foram-nos fornecidos por quem lida diariamente com as equipas. Podem pecar por defeito ou por excesso, mas não devem fugir muito desta realidade.
REALIDADE DESFASADA NO TEMPO
As ProTeams e as WorldTeams fazem contratos válidos por três ou mais anos com os seus patrocinadores. Em Portugal os contratos são anuais. Isto significa que as equipas andam sempre com a corda na garganta, não permitindo um planeamento a médio prazo em termos de estrutura, plantel e calendário. Também cria ansiedade e retira margem de negociação, dado que é geralmente em Outubro e Novembro que as equipas geralmente batem à porta das empresas, quando o deveriam fazer muito antes.
É verdade que Portugal é agora uma espécie de escape para ciclistas internacionais que não conseguiram um contrato nas WorldTeams e ProTeams, mas todos sabemos que esta é uma fase temporária e que à mínima oportunidade vão querer regressar aos grandes palcos.
NINGUÉM NOS LIVRA DA FAMA
Os melhores ciclistas nacionais, quando têm a oportunidade de sair nem pensam duas vezes. Vários disseram-nos a mesma frase: "Ficar em Portugal é estagnar". Pior que isso é a fama que o nosso ciclismo tem interna e externamente. As empresas antes de investirem em contratos de patrocínio pesquisam, estudam e tentam perceber que tipo de retorno pode a modalidade dar e qual é a imagem que tem perante os seus potenciais clientes. Embora o ciclismo seja uma modalidade que defende a superação, o altruísmo e o trabalho coletivo com um objetivo comum, o que passa cá para fora é outra realidade. E aí a imagem do doping é difícil de limpar.
Enquanto o ciclismo não renovar completamente a sua estrutura, da base ao topo, não vai conseguir gerar credibilidade e esse é um dos motivos para o afastamento de algumas empresas e mesmo dos órgãos de comunicação social.
Felizmente, há patrocinadores que se mantêm por amor à modalidade, mas quando esses se cansarem, quem ocupará esse espaço?
Criar uma estrutura ProTeam ou WorldTeam com a maioria do plantel composto por ciclistas portugueses é viável e já foi tentado, mas a palavra que começa com um "d" vem sempre à baila. Quem se vai comprometer a ressarcir os patrocinadores caso surjam casos de dopagem?
MENOS MEDIATISMO
Os jornais e revistas atravessam períodos conturbados e mesmo os canais de televisão não estão com saúde financeira. Os leitores apostaram no consumo digital, mas até esse tem uma particularidade: enquanto no jornal e na revista podíamos ler uma entrevista ou reportagem de uma prova que ocupava quatro páginas, no site poucos são os que fazem scroll no mesmo artigo mais do que um minuto e meio. O meio digital é consumido mais rapidamente e não se destina a artigos extensos pela dificuldade de leitura e, claro, pela intromissão da publicidade, a única forma desses sites sobreviverem.
As estruturas dos sites são mais pequenas, com recursos mais parcos e como a publicidade é mais barata do que no papel (algo que não faz sentido dado que no meio digital as visualizações são exponencialmente maiores), há menos meios para fazer a cobertura de provas.
No caso da televisão, existe um panorama diferente, mas também complicado. Em Portugal, a RTP tem garantido nos últimos anos a cobertura da Volta a Portugal, mas por vezes teve de subcontratar meios externos. Filmar, produzir e editar uma prova de ciclismo envolve muito mais meios do que, por exemplo, a cobertura de um jogo da Liga dos Campeões. E é mais cara a produção televisiva de uma prova de ciclismo do que de um jogo da UEFA. Nas provas WorldTour, há um acordo com a Warner Bros/Discovery, detentora dos canais Eurosport, que são pagos, mas quem nos garante que, no futuro, não tenhamos de pagar um valor adicional para assistir, por exemplo, a uma grande volta ou a um dos Monumentos? O pay per view tem sido implementado em todo o mundo e o ciclismo não deverá escapar, infelizmente, a esse cenário.
Acresce o facto de que, cada vez mais, vemos as equipas fechadas numa bolha. Longe vão os tempos em que era possível ir aos estágios no ínicio da época (no WorldTour), pedalar com os ciclistas alguns dias e fazer quantas entrevistas quiséssemos. Hoje em dia não permitem uma entrevista que dure mais de 10 ou 15 minutos.... e parece que nos estão a fazer um favor!
UMA REALIDADE PARALELA
Ninguém quer falar de ordenados no ciclismo nacional, como se fosse um tema tabu. Mas todos sabemos que na altura em que o Vitor Gamito competia, ou o Cândido Barbosa, os ciclistas ganhavam muito bem tendo em conta a realidade do país. Hoje em dia atrevemo-nos a dizer que meia dúzia de ciclistas ganham acima da média e os restantes ganham miseravelmente.
Mas o receio de falar abertamente deste tema perpetua algo que é evidente. Claro que já ouvimos falar em pagamentos não declarados, em ordenados fictícios e, inclusive, em ciclistas que competiram de borla. Mas se assim é, ninguem diz nada e ninguém faz nada?
UM PASSO ATRÁS?
Alguns dos melhores ciclistas nacionais estão em algumas das melhores equipas do mundo. Será que estariam dispostos a abdicar de algo que atingiram com tanto sacrifício para representar uma equipa portuguesa além fronteiras, mesmo no WorldTour? Em final de carreira acreditamos, mas somente num projeto sólido, com patrocinadores garantidos durante vários anos, e com um enquadramento bem delineado.
Uma equipa com um patrocinador forte - como a Jerónimo Martins, por exemplo, ou a MC - junto com outro patrocinador não necessariamente luso, só conseguiria chegar ao topo rapidamente se comprasse uma licença existente e ainda teria de passar pelo escrutínio do Comité de Licenças da UCI. Portanto, o passo mais lógico seria tentar entrar pelo escalão intermédio - ProTeam - e depois aí sim, tentar dar o passo rumo ao WorldTour passado alguns anos.
NINGUÉM VAI INVENTAR NADA
Já tivemos projetos em Portugal com potencial para dar o passo seguinte. Enquanto uns terminaram por rompimento de contrato, outros caíaram nas malhas do doping. Que isso sirva de ensinamento para o futuro. Planear com pés e cabeça, apostar na juventude de qualidade, apetrechar a equipa com bons técnicos, gerar visibilidade, obter resultados, mimar os fãs e os patrocinadores. Tudo isto são bases obrigatórias em qualquer projeto desportivo. Tentar fazer apressadamente é um presságio para o fracasso. É preciso rodear os ciclistas de bons valores, blindar o acesso a quem não traz boas referências e educar as novas gerações para o ciclismo verdadeiro, explicando as consequências da dopagem. Os médicos da equipa devem ter formação antidoping e deve ser criado - como acontece nas melhores equipas internacionais - um agente de ligação (alguém de confiança dentro da equipa) para poder ser reportada uma eventual denúncia sobre atividades ilícitas ou potencialmente duvidosas.
Temos uma cultura de rebaixamento cultural e poucos são os que acreditam que conseguimos fazer mais e melhor. Não, nem tudo está mal em Portugal, nem tudo tem de ser igual. Se pensarmos todos assim, matamos os empreendedores e ninguém cria um projeto desportivo. Se o João Almeida não tivesse dito "sim" quando foi convidado para ir para a UAE Emirates, seria mais um dos que costumam dizer que tudo está mal e que nós, portugueses, somos inferiores aos outros. O João também ficou receoso de falhar, de não conseguir cumprir os objetivos. Mas foi à luta e agora está no patamar que todos conhecemos. Criar uma equipa também é uma montanha de receios e ansiedade, mas acreditamos que é viável. Não somos inferiores e Portugal merece uma equipa ProTeam ou WorldTeam com pessoas novas, com garra e sem os "vícios" que alimentaram o ciclismo no passado.
Os Diretores de Marketing gostam de ser desafiados. E este é um projeto colossal que poderá gerar um ROI interessante. Fica a dica para os verdadeiros empreendedores...









