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Ciclismo, o desporto incompreendido

O ciclismo profissional, nomeadamente o WorldTour, tem um potencial gigantesco, mas continua a ser uma modalidade incompreendida - e isso repercute-se nos salários, na dificuldade em obter patrocínios e, acima de tudo, em chegar a um público mais vasto -. Mas isto não acontece por acaso: há outros lobbies em jogo...

Carlos Pinto. Foto: Luca Bettini (Sprint Cycling Agency)

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Ciclismo, o desporto incompreendido

Em muitos países, o futebol é o desporto-rei. É uma modalidade fácil de compreender, embora nem todos conheçam as regras do fora de jogo, e que gera consenso. É fácil ganhar paixão por um clube ou ficar fã de um jogador, apesar de ter o seu lado perverso: o fanatismo.

Há grandes multinacionais a investir milhões anualmente, quer nos clubes, quer nas federações e instituições internacionais que regem a modalidade. Além disso, existem lobbies gigantescos envolvidos. A própria banca está fortemente ligada ao setor, assegurando a sua sobrevivência, apesar de os ativos dados como garantia estarem claramente sobrevalorizados.

Mas não é só isto que faz girar uma indústria de milhões. Os media também contribuem para esse fenómeno, oferecendo milhares de horas de debates e servindo de muleta ao futebol, na esperança de que o share e as visualizações se traduzam em melhores audiências.

O ciclismo, ou melhor, o modelo de negócio do ciclismo está ultrapassado. Porquê? Porque uma única entidade, a A.S.O., manda mais no ciclismo do que que a própria UCI. Como empresa privada, a ASO é a organizadora de uma boa parte das principais provas de ciclismo do mundo, o que tem feito com primor, embora existam sempre pontos a melhorar.

A segurança dos ciclistas continua a ser negligenciada e, apesar de existirem várias ideias para otimizar este aspeto, as regras implementadas sáo escassas e, algumas até, não têm grandes efeitos práticos. 

Outro aspeto importante: o ciclismo profissional merece ser transmitido em canal aberto. Quem já viu uma Volta a Itália, Volta a França, Volta a Espanha, Paris-Roubaix ou Tour de Flandres já se apercebeu do potencial gigantesco destas provas.

Comercialmente, é uma mina de ouro mal aproveitada e, em termos televisivos, existe um gigantesco storytelling por explorar. Como gestor de formação e jornalista de profissão, sinto que o ciclismo está a passar ao lado do seu verdadeiro potencial. 

Ainda por cima, estamos numa das fases douradas do ciclismo, com várias estrelas em atividade: Pogacar, Vingegaard, Evenepoel, Wout van Aert e Mathieu van der Poel e as chegadas de Del Toro, Paul Seixas, entre outros. 

Não compreendo como é que em Portugal ainda não existem programas televisivos exclusivamente sobre ciclismo... Há inúmeras histórias para contar, além de termos ciclistas lusos em destaque nas melhores equipas do mundo. 

Marcas como a Nike e a Adidas, por exemplo, têm produtos destinados a ciclismo, mas ainda não começaram a investir em campanhas publicitárias nos meios da especialidade, portanto são claramente ultrapassadas por outras, mais pequenas, mas que realmente investem muito na sua promoção como a Castelli, Alpinestars, Gobik, entre outras.

Como em qualquer modalidade, a escala diz tudo. O investimento das marcas de ciclismo é sobretudo usado nas equipas profissionais e poucas são as que publicitam, por exemplo, produtos para o consumidor médio (são os que realmente compram). Raramente vejo anúncios de sapatos de 50€ ou de bicicletas de 600€. A noção que muitos têm, pelo menos daqueles que não acompanham o setor, é que o mundo das bicicletas é só para ricos. É esta a mensagem que as marcas querem transmitir? E o comum dos mortais?

A paixão pela modalidade cresce com exemplos. É necessário criar ídolos, mas também é preciso que esses ídolos queiram ser idolatrados e passem a mensagem correta. Não é fácil e nem sempre é exequível. Mas, por vezes, um ídolo não precisa necessariamente de ser o vencedor.

Isso, por si só, pode - e tem feito atualmente - atrair audiência. Essas histórias merecem ser contadas em sinal aberto. O acordo entre a ASO e a WBD deve superar ligeiramente os 100 milhões de dólares. Não será um valor demasiado pequeno para a dimensão do ciclismo? E as equipas, não merecem também receber uma fatia do bolo, já que são as que proporcionam espetáculo?

As equipas atualmente são geridas como empresas. Não seria mais benéfico transformarem-se em sociedades anónimas para facilitar a entrada de patrocinadores e conseguir uma maior estabilidade financeira? Não deviam receber parte dos direitos televisivos? 

Como o ciclismo não tem bilheteira (excepto nos Mundiais), as receitas dependem exclusivamente de patrocinadores, de merchandising, de ativações e de vendas no final do ano (bicicletas, componentes e, por vezes, alguns veículos). Este modelo já não faz sentido.

No futebol, os direitos televisivos são centralizados, o escossistema financeiro é mais sólido, existem entidades privadas que pagam mais dinheiro (UEFA, FIFA) e uma das fontes de receitas é a venda de jogadores e as academias. 

Se houver partilha de receitas televisivas, isto tornará as equipas mais estáveis e permanentes. Além disso, é essencial que a identidade comercial seja menos dependente do naming sponsor (no futebol, é isso que acontece) e se o ciclismo for verdadeiramente explorado mediaticamente (ideias não me faltam), com uma abordagem moderna (documentários, storytelling, bastidores, rivalidades, etc.).não tenho dúvida de que o crescimento será notório.

Basta haver vontade, olhar para além do óbvio e dar ao ciclismo a dignidade que merece.

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