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Embora desconhecida para muitos, a Ochain conquistou a sua reputação desde que Fabrizio Dragoni a apresentou ao mercado em 2020. Graças ao passa-palavra e às produções muito limitadas, o conceito Ochain foi ganhando adeptos até passar a integrar a família SRAM no ano passado. Agora, um ano depois, a Ochain conta com quatro modelos (dois para BTT e dois para eMTB) e um kit de upgrade recentemente lançado.
Testámos o novo SRAM Ochain R na Nova Zelândia, percorrendo desde trilhos com bastante fluidez até aos mais agressivos de bike parks, e comprovámos o que este sistema anti-kickback realmente proporciona. O Ochain substitui a aranha convencional dos cranques e permite que a cremalheira tenha um determinado movimento para trás. A ideia é reduzir as forças geradas entre a transmissão, o amortecedor e o ciclista, diminuindo o chamado "pedal kickback".
Existem componentes que, quando os testamos pela primeira vez, não precisam de muitas explicações. O Ochain é um deles. A primeira coisa que chama a atenção é algo que se deixa de ouvir: o ruído da corrente é reduzido drasticamente. Durante a nossa estadia na Nova Zelândia, a convite da SRAM para conhecer e testar as suas últimas novidades, tivemos a oportunidade de pedalar durante vários dias com as versões de pré-série do Ochain R e experimentar as suas diferentes posições de ajuste.
O QUE É EXATAMENTE O SISTEMA OCHAIN?
O Ochain é uma aranha alojada na cremalheira, mas a ligação com o pedaleiro não é rígida. O sistema permite uma quantidade ajustável de rotação para trás entre os braços do cranque e a cremalheira propriamente dita, reduzindo a tensão indesejada nos pedais durante a compressão do amortecedor e nas travagens. Numa transmissão convencional, este movimento resulta geralmente em tensão e movimentação da corrente que chega aos pedais, provocando fadiga e vibrações.
O sistema interno do Ochain permite que a cremalheira gire para trás de forma controlada, absorvendo parte deste movimento. O resultado é uma bicicleta mais silenciosa, com menos movimento da corrente e uma maior sensação de estabilidade e controlo em terrenos difíceis, uma vez que os cranques se mantêm na mesma posição.
Se a cremalheira for puxada para trás pela tensão da corrente, a aranha Ochain permite uma rotação livre para trás de 3° a 12°, dependendo da posição do ajustador externo (se estivermos a utilizar uma versão ajustável). Desta forma, a aranha absorve a rotação provocada pela tensão da corrente para que não a sintamos — ou, pelo menos, a sintamos muito menos — nos pedais.
Uma das grandes vantagens do novo Ochain R é que permite modificar externamente o seu curso através de um seletor, sem necessidade de desmontar nada. Ainda assim, o Ochain não é um componente que se possa instalar e simplesmente esquecer. A SRAM estabelece uma manutenção periódica: substituição do elastómero a cada 100 horas e revisão completa a cada 200 horas — intervalos semelhantes aos encontrados noutros componentes do sistema de amortecimento.
Há cinco posições de ajuste:
- LOCK / 0°: completamente bloqueado.
- 3°: pensado para XC e Trail.
- 6°: Trail e Enduro.
- 9°: Enduro, Bike Park e DH.
- 12°: Bike Park e DH em terrenos extremadamente técnicos.
A SRAM recomenda utilizar ajustes mais baixos quando a prioridade é pedalar e aumentar o ângulo quando se procura principalmente desempenho em vertentes mais extremas. E esta possibilidade de mudar de posição é, precisamente, um dos aspetos que mais sentido faz numa bicicleta de Enduro. Durante os testes na Nova Zelândia, alternámos entre as diferentes posições para verificar como variava a sensação na bicicleta. No meu caso, os ajustes que mais utilizei foram 9° e 12°, principalmente porque uma boa parte dos testes foi realizada em bike parks e em terrenos muito acidentados.
A primeira sensação que tive foi a redução do ruído da corrente. É algo realmente notável. Ao passar por troços com raízes e pedras, ou durante travagens bruscas, a transmissão parece muito mais silenciosa. A corrente deixa de bater e de se mover com tanta violência, e a bicicleta transmite uma sensação de maior estabilidade e suavidade enquanto o amortecedor trabalha.
Mas, para além do ruído, o interessante está no que acontece aos pés. Ao reduzir a quantidade de feedback que chega aos pedais, especialmente quando o amortecedor trabalha em compressões e travagens, a bicicleta parece mais livre e menos reativa sob os pés. É uma sensação difícil de explicar.
Quando recebemos a unidade de teste, instalámo-la na nossa bicicleta pessoal e pedalámos pelos nossos trilhos habituais, onde, dias antes, tínhamos pedalado sem o Ochain. Numa subida longa e técnica, que necessita de resposta imediata a cada pedalada, provavelmente o ideal é reduzir o ajuste; aliás, a SRAM recomenda precisamente posições mais baixas quando a prioridade é a eficiência da pedalada.
Aqui, é preciso ter em conta uma particularidade do Ochain. Quanto maior for o ângulo selecionado, maior será o curso do sistema antes de transmitir totalmente o movimento da pedalada à cremalheira- Nas descidas, isso joga a nosso favor, mas, na hora de subir, é preciso considerar esse aspeto. Na posição de 12°, a sensação de movimento antes de começar a transmitir a pedalada é claramente maior do que com o sistema bloqueado.
Pessoalmente, durante os testes, isto não me pareceu algo preocupante, mas é uma sensação a que é preciso alguma habituação, especialmente se vier de uma transmissão convencional. Um dos testes mais interessantes foi precisamente colocá-lo em modo LOCK. Aqui, o efeito característico do Ochain praticamente desaparece, e a sensação aproxima-se muito mais da de uma transmissão convencional. Ainda assim, durante o teste, notei uma pequena folga, embora, pessoalmente, me tenha parecido praticamente impercetível durante a pedalada. Isto permite também fazer uma comparação bastante simples: testar o mesmo trilho com o Ochain bloqueado e, depois, em algumas das suas outras posições. E é precisamente quando se começa a explorar estas diferenças que se compreende melhor o que o sistema está realmente a fazer.
O conceito faz ainda mais sentido quanto mais agressivo for o terreno. Num troço rápido e acidentado, com travagens, raízes, pedras e grandes compressões, o amortecedor trabalha continuamente. É precisamente nestas situações que o Ochain pode reduzir o pedal kickback e a movimentação da corrente, mostrando todo o seu valor. Não se sentem aqueles solavancos para trás nos pedaleiros, o que permite manter o foco noutros aspetos da condução. No meu caso, para uma bicicleta de Enduro orientada para a competição, provavelmente começaria com 9° como ajuste base e reservaria os 12° para dias de bike park ou circuitos especialmente acidentados.
Outro ponto interessante do Ochain é que, por estar instalado nos pedaleiros, o ângulo de movimento selecionado não é multiplicado pelos saltos de mudança da cassete; ou seja, estes 9° continuam a ser 9°, independentemente de estarmos a usar um carreto grande, intermédio ou pequeno.
CONCLUSÃO
Depois de testar o SRAM Ochain R na Nova Zelândia, acredito que seja um daqueles componentes cujo valor real só se percebe ao experimentá-lo; por isso, queríamos tanto testá-lo no nosso terreno habitual. A diferença mais imediata está no ruído da transmissão, que diminui drasticamente. No entanto, faz realmente sentido em terrenos acidentados, onde a redução do pedal kickback (o contragolpe do pedal) proporciona uma sensação de maior controlo à bicicleta, evitando que as oscilações do amortecedor cheguem aos nossos pés através dos pedais.
É indispensável? Não. Conseguimos perceber a diferença ao testá-lo? Sim. E, depois de várias descidas com ele, é difícil não sentir falta desse silêncio e daquela sensação de controlo nos pés, como se estivéssemos a flutuar ou a filtrar os impactos, quando se regressa a uma transmissão convencional. O seu grande contributo está precisamente aí: eliminar as forças que são transmitidas desde o eixo traseiro, passando pela corrente, até aos pedais. O seu sucesso no panorama internacional de Downhill é inegável; num ambiente onde cada milésimo de segundo conta, muitos atletas profissionais utilizam o Ochain há várias temporadas, tal como no cenário do Enduro.
O atual Ochain R oferece ajuste externo (LOCK, 3°, 6°, 9° e 12°), pesa entre 165 e 180 g (aproximadamente) e é compatível com cremalheiras 104 BCD.
Os modelos R e S (e-BTT para Bosch) são as versões mais caras, custando 380€. Contam com ajuste externo - um pequeno seletor que permite alterar as características de forma rápida e fácil. Já os modelos N e E (e-BTT) são mais acessíveis, custando 310€; no entanto, exigem a desmontagem do sistema e o reposicionamento do chip de ajuste caso se pretenda alterar o ângulo de rotação. Estes modelos vêm configurados de fábrica com 9°, mas também permitem ajustes de 6° e 12°. Contudo, é necessário comprar as peças correspondentes separadamente, o que acrescenta um custo de 25€. O novo kit de upgrade permite passar da versão N ou E para as superiores, mas, devido ao preço (100 €), a não ser que já tenha o Ochain instalado, vale mais a pena adquirir directamente as versões superiores.
Poderás encontrar mais informações em Team Bike e SRAM.
