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Robbie McEwen garante que João Almeida podia ter sido o grande pesadelo de Jonas Vingegaard no Giro

Entrevistámos Robbie McEwen, considerado um dos melhores sprinters de sempre. O antigo ciclista australiano, atualmente comentador internacional do Eurosport, falou connosco sobre a edição deste ano da Volta a Itália e abordou vários temas, entre eles a ausência de João Almeida.

Carlos Pinto. Fotos: Eurosport

Robbie McEwen garante que João Almeida podia ter sido o grande pesadelo de Jonas Vingegaard no Giro
Robbie McEwen garante que João Almeida podia ter sido o grande pesadelo de Jonas Vingegaard no Giro

A Volta a Itália já começou e há temas que são incontornáveis. Aproveitámos uma iniciativa do canal Eurosport, onde representámos os meios de comunicação social portugueses, na qual entrevistámos o ex-ciclista profissional australiano Robbie McEwen, atual comentador do canal desportivo. 

Sem João Almeida, Richard Carapaz e Mikel Landa, o Giro perde alguma da sua competitividade?
Perde um pouco, sobretudo com a ausência de Almeida. Para mim, é a maior falta. Poderia ter sido um verdadeiro rival de Jonas Vingegaard. Sem ele, Vingegaard torna-se o grande favorito, a não ser que algo corra mal. Mas o lado positivo é que isto cria uma disputa fascinante pelo pódio e pelas cinco primeiras posições. Abaixo de Vingegaard, existe um grande grupo de ciclistas a um nível muito semelhante. Vejo Giulio Pellizzari como o mais forte dos restantes - colocá-lo-ia como o provável segundo classificado - mas depois dele, o pelotão é incrivelmente equilibrado: Adam Yates, Jai Hindley, Thymen Arensman, Ben O’Connor, Michael Storer, Geraint Thomas, e estou muito curioso para ver como Egan Bernal se sai, tendo em conta a sua recente recuperação e melhoria de forma.
 
Comparativamente às edições anteriores, este Giro parece ter menos subidas icónicas. Como é que isso afeta a corrida?
À primeira vista, há menos subidas famosas e menos etapas de montanha, mas as que estão incluídas são extremamente difíceis. Em vez de uma ou duas etapas rainhas óbvias, há quatro que poderiam reivindicar esse título. Isto deve criar uma corrida mais dinâmica. Algumas etapas favorecerão fugas com disputas pela classificação geral atrás, e outras poderão baralhar completamente a classificação. Mesmo com menos subidas lendárias, temos ainda o Jaufenpass, o Blockhaus e várias subidas que não são utilizadas há décadas - ou nunca foram. As subidas tornam-se icónicas por causa da forma como os ciclistas as disputam, e podemos descobrir novas que merecem regressar.
 
A 10ª etapa tem um contrarrelógio plano de 42 km. Isto acaba efetivamente com as esperanças de classificação geral dos trepadores puros, ou a brutal semana final nas Dolomitas pode compensar?
Os trepadores puros melhoraram muito nos contrarrelógios, mesmo nos planos. Em 42 km, ainda perderão tempo, mas não quantidades catastróficas. E as etapas de montanha que se seguem oferecem muitas oportunidades para recuperar tempo, caso os ciclistas sejam suficientemente fortes. Gosto que haja apenas um contrarrelógio individual - 42 km é quase demasiado, mas dá aos ciclistas que dependem do contrarrelógio a hipótese de ganhar tempo antes das altas montanhas. O percurso parece bem equilibrado: todos têm a oportunidade de utilizar os seus pontos fortes.
 
A 7ª etapa, de Formia a Blockhaus, tem 244 km!. Como é que esta distância afeta os ciclistas psicologicamente e favorece os trepadores puros ou os motores a diesel?
Os ciclistas com experiência em etapas muito longas - os motores a diesel - conseguem lidar melhor com isso, embora quase ninguém no pelotão moderno tenha disputado etapas tão longas. Wout Poels é um dos poucos que se lembra delas. Vai ser brutal. Alguns ciclistas preferem etapas longas porque as curtas e explosivas não lhes convêm. Outros vão odiar. A distância tanto pode assustar todos, levando-os a uma postura conservadora, como produzir um dia épico que defina a corrida. Penso que Vingegaard vai visar esta etapa para assumir o controlo do Giro. Em 244 km, as diferenças serão maiores do que se fossem 150 km.
 
O que espera das etapas de sprint e como avalia Jonathan Milan?
Inicialmente, pensei que seriam nove etapas planas, o que me fez lembrar a era Cipollini e Petacchi. Mas, analisando com atenção, várias etapas não são verdadeiras etapas de sprint. Ainda assim, os sprinters têm boas oportunidades. Milan é o favorito indiscutível - o seu registo no Giro e a sua forma nas Grandes Voltas falam por si. Teve alguns problemas de saúde e algumas derrotas este ano, mas sem Jasper Philipsen, Tim Merlier ou Olav Kooij, destaca-se. Tobias Lund Andresen, Paul Magnier e Kaden Groves são os principais rivais. O Milan tem por vezes dificuldades nas montanhas, mas recupera bem. O pelotão de sprinters não é muito forte, mas Milan é o nome principal, especialmente em Itália.
 
Vimos Vingegaard e Pogačar a treinar sprints. O que pensa dos ciclistas da classificação geral a disputar sprints?
Perceberam a importância dos segundos de bonificação. É preciso sprintar não só nas chegadas de etapa, mas também pelos bónus intermédios, especialmente no Tour. Mesmo os trepadores puros raramente terminam sozinhos - geralmente têm de superar um ou dois rivais. Portanto, treinam este tipo de esforço. Pogačar consegue fazer tudo, o que é a sua vantagem sobre Jonas. Mas neste Giro, não creio que Vingegaard precise de sprintar muito - causará danos nas chegadas ao topo e no contrarrelógio.
 
Quais são as hipóteses de Jay Vine na classificação geral se evitar quedas?
Essa é sempre a grande questão com o Jay. Mas adoraria vê-lo tentar a classificação geral. É incrivelmente consistente em fugas e etapas de montanha, e num contrarrelógio de 42 km poderia até vencer Vingegaard ou Filippo Ganna, especialmente no final de uma Grande Volta. Nunca foi o líder protegido da classificação geral - havia sempre Almeida ou alguém à sua frente. Com Almeida, Isaac del Toro e Pogačar ausentes, esta é a oportunidade perfeita para a UAE o apoiar totalmente.
 
Quem tem mais hipóteses de vencer a classificação por pontos: Milan ou Magnier?
Magnier sai-se melhor em etapas duras, mas essas etapas geralmente terminam em fugas, o que dificulta a pontuação. O Milan vai construir uma grande vantagem nos sprints puros. Magnier precisa de vencer os dias de sprint mais difíceis para se manter próximo. Groves também pode desafiar - sobe bem e é mais rápido do que Magnier num sprint plano. Tobias Lund Andresen é outro que lida bem com terrenos difíceis. Mas o Milan começa em vantagem.
 
O que gosta particularmente em Jonathan Milan como sprinter e onde pode melhorar?
A sua potência bruta: quando arranca, parece que está a destruir a bicicleta. O seu trabalho de lançamento com Simone Consonni funciona brilhantemente, apesar da diferença de tamanho entre eles. A sua fraqueza é a mesma de todos os velocistas: sobreviver aos dias difíceis nas montanhas. Mas ele não pode sacrificar a velocidade para escalar melhor. Onde ele pode melhorar é na aerodinâmica e na eficiência. O seu sprint é selvagem e pouco suave. Se mantiver a mesma potência, mas se tornar mais aerodinâmico, será ainda mais perigoso.
 
O que pensa do início do Giro na Bulgária? Ajuda a desenvolver o ciclismo em países mais pequenos?
Gosto. Sim, há um lado económico, mas também é uma excelente forma de expandir o ciclismo para países não tradicionais. A Bulgária pode descobrir a paixão do Giro. É um desafio logístico, mas o Giro já começou na Bélgica, na Holanda - em toda a Europa. Estou entusiasmado para ver como a Bulgária o abraçará.
 
As pessoas na Bulgária acham que o Vingegaard vai ganhar facilmente. Concorda?
Têm razão em vê-lo como o favorito. Já participou em sete ou oito Grandes Voltas e nunca terminou fora dos dois primeiros lugares, exceto quando o seu próprio companheiro de equipa o derrotou. Apenas Pogačar o derrotou verdadeiramente. Mas a corrida ainda tem de ser disputada - são mais de 3.300 km da Bulgária até ao Coliseu.
 
As equipas atualmente utilizam Inteligência Artificial, dados avançados e análise de desempenho. Isto pode melhorar a tomada de decisões?
No ciclismo, até os ganhos de 1%, ou menos, têm importância. Quando somados, tornam-se significativos. Pequenas decisões ao longo de uma etapa podem decidir o resultado final. As equipas que adotam uma abordagem semelhante à da Fórmula 1 nas suas análises estão a fazer a coisa certa.
 
Que jovens ciclistas vê como futuros vencedores de Grandes Voltas?
Isaac del Toro, por exemplo, devia ter ganho o Giro do ano passado. Adoraria ouvir o que foi dito no carro da equipa naquele dia. Paul Seixas é o grande nome de que todos falam, e está prestes a disputar o seu primeiro Tour. Pellizzari está a progredir de forma constante. Florian Lipowitz já mostrou muito. O ciclismo está a tornar-se mais jovem - os ciclistas são identificados cedo, treinados como profissionais antes mesmo de chegarem às camadas jovens. Há toda uma nova geração de jovens talentos a surgir.
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