O ciclismo francês procura desesperadamente, há décadas, um grande campeão capaz de vencer a Volta a França (Bernard Hinault foi o último a fazê-lo, em 1985). Nos últimos anos, o nome de Paul Seixas tem vindo a ganhar destaque e a gerar grande entusiasmo entre os fãs franceses. O jovem prodígio continua a brilhar nas etapas a um ritmo alucinante e, neste início de temporada, demonstra ser mais do que uma promessa; já é uma realidade.
Vencedor do Tour de l'Avenir de 2025 - considerado a Volta a França do Futuro - com apenas 18 anos, Seixas (Decathlon CMA CGM) iniciou a temporada de 2026 de forma espetacular, competindo de igual para igual com estrelas do pelotão e demonstrando uma evolução notável. Na Volta ao Algarve brilhou tanto na montanha — vencendo ao sprint no Alto da Fóia e batendo Juan Ayuso, João Almeida, Oscar Onley e Matthew Riccitello — como no contrarrelógio de 19,5 km em Vilamoura, onde terminou no quarto lugar, perdendo apenas por alguns segundos para Filippo Ganna, Ayuso e Jakob Söderqvist.
O segundo lugar na classificação geral da prova algarvia – atrás do espanhol da Lidl-Trek, com João Almeida em terceiro – foi apenas um prelúdio para a sua vitória a solo na Clássica Faun-Ardèche (1.Pro). Uma vitória forjada na subida a Saint-Romain-de-Lerps (6,8 km a 8,5% de inclinação média), e que ficou marcada pelo seu ataque demolidor deixando sufocados trepadores de alto nível como Lenny Martínez, Egan Bernal, Mattias Skjelmose, Jan Christen e Matteo Jorgenson, o único que inicialmente conseguiu acompanhar o ritmo alucinante do francês, antes de finalmente sucumbir num dos troços mais íngremes.
Após esse ataque, faltavam 43 km para a meta (situada em Guilherand-Granges), e Seixas demonstrou grande confiança, aumentando gradualmente a sua vantagem tanto nas descidas (onde demonstrou a sua técnica, aprendida no ciclocrosse) como nas duas últimas subidas em Val d'Enfer (1,5 km a 10,3%). Cruzou a linha de meta 1m48 à frente de Christen, Lenny Martinez e Jorgenson, e 2m07 à frente de Skjelmose, coroando a sua primeira grande exibição como ciclista profissional.
Mas o dado mais espectacular surgiu depois, quando foi revelado que o francês subiu a Côte de Saint-Romain-de-Lerps no mesmo tempo (16:18) que Tadej Pogacar tinha registado uns meses antes no Europeu de Ciclismo de Estrada (foi nesta subida que o esloveno atacou e desestabilizou a corrida). Evenepoel subiu-a depois em 16:53... o mesmo tempo do próprio Seixas, que conquistou a medalha de bronze no Europeu. Embora cada subida seja diferente (as condições meteorológicas, a situação da corrida, o percurso... não são os mesmos), este dado é impressionante e demonstra bem o nível que a nova jóia do pelotão internacional já está a apresentar.
"Foi incrível, senti-me muito bem durante todo o dia. (...) Fizemos um estágio muito intenso na Sierra Nevada, onde o meu treinador me preparou na perfeição. O inverno correu muito bem, o que me permitiu dar um salto significativo. Hoje estou a colher os frutos de todo este trabalho; sinto que continuo a ficar mais forte. Sinto-me muito bem, e o trabalho de equipa também está a dar resultados.", referiu o lusodescendente.
Tal é a confiança nele que o prestigiado diretor desportivo Marc Madiot já o apelidou de "O Escolhido" do ciclismo francês.
"Acredito que Paul Seixas é o escolhido. Será o ciclista que a França espera para vencer o Tour. (...) Já está entre os 5 melhores do mundo; nota-se que tem um talento que outros não têm. Tem algo de diferente, como Pogacar e Vingegaard", referiu Madiot.
TOUR DE PORVENIR
Paul Seixas nasceu no dia 24 de Setembro de 2006 em Lyon (Rhône). Pesa 64 kg, é alto (1,84m) e podemos considerá-lo um ciclista completo, capaz de se destacar tanto em etapas de montanha como em contrarrelógio. Durante a sua formação, combinou o ciclismo de estrada com o ciclocrosse e rapidamente se destacou pelo seu talento e resultados, razão pela qual é considerado há muito tempo a grande jóia e esperança do ciclismo francês.
Em 2021, sagrou-se campeão francês de ciclismo de estrada na categoria de Cadetes e vice-campeão de ciclocrosse; no ano seguinte, sagrou-se campeão nacional de ciclocrosse na categoria de Cadetes e terminou em 4º lugar na prova de estrada. Em 2023, integrou a equipa AG2R Citroën U19, onde esteve dois anos e ganhou várias provas na categoria júnior (Liège-Bastogne-Liège, Campeonato Francês de Contrarrelógio, Tour du Pays de Vaud, Clássica Alpina Júnior, Clássica da Região Sul, Giro della Lunigiana e Tour du Pays d'Olliergues, entre outras). Estes sucessos culminaram com o título de Campeão do Mundo de Contrarrelógio Júnior em 2024, apenas nove dias após a conquista do bronze no Campeonato Europeu de Ciclismo de Estrada Júnior. A sua estrela brilha intensamente há anos.
Em meados de setembro de 2024, a Decathlon AG2R La Mondiale anunciou que Seixas se tornaria profissional com apenas 18 anos, sem nunca ter competido pela equipa de desenvolvimento. Um grande desafio, que o prodígio francês está a superar com mestria, confirmando que estamos a assistir ao surgimento de um ciclista verdadeiramente excecional.
Na sua temporada neoprofissional, já deu mostras do seu potencial com resultados excecionais no Critérium du Dauphiné (8º na classificação geral), no Tour dos Alpes (2º em duas etapas; numa delas, deixando vencer o seu companheiro de equipa Nicolas Prodhomme, com quem chegou à frente na linha de meta), no Paris-Camembert (2º) e no Grand Prix Ciclista La Marseillaise (5º), antes de vencer o Tour de l’Avenir, onde venceu o prólogo, foi segundo nas duas grandes etapas de montanha e confirmou a sua vitória dominando a cronoescalada final em La Rosière.
Seixas terminou a temporada com uma medalha de bronze no Campeonato da Europa — juntando-se a Pogacar e Evenepel no pódio — e um sétimo lugar no último Monumento do ano, Il Lombardia. São resultados impressionantes para um neo-profissional de 19 anos... resultados que se estendem até ao início da época de 2026. A excitação está ao rubro em França, um país que não tinha um grande campeão há quatro décadas.
As próximas provas no seu calendário são a Strade Bianche (este sábado, onde vai defrontar Tadej Pogacar), a Itzulia País Basco (6 a 11 de abril), a Flèche Wallonne (22 de abril) e a Liège-Bastogne-Liège (26 de abril). E embora não esteja confirmado, poderá fazer a sua estreia nas Grandes Voltas esta temporada, quer seja na Volta a França, ou na Volta a Espanha.
