O cluster de produtores de bicicletas situado sobretudo em Águeda, embora com pólos noutras regiões do país, tem colocado Portugal na liderança a nível europeu. A indústria modernizou-se, criou escala, mas está a padecer de um problema genérico: falta de mão de obra.
A produção tem tendência para crescer, apesar da forte concorrência, fruto de entidades que apoiam a inovação e as parcerias com universidades, como o Bikinnov, localizado em Águeda. Há projetos de expansão, vão surgir novas unidades fabris - uma delas será em Coimbra, ligada ao grupo SRAM - e no campo da produção, o caminho está a ser feito.
Em Portugal, há quem diga que nunca se andou tão pouco de bicicleta. Os dados não batem certo com esta crença. Por exemplo, os dados recolhidos nos contadores das ciclovias em Lisboa apontam um crescimento acentuado da utilização entre 2017 e 2023 (ano do último estudo), com alguns dados que vale a pena analisar. O número de mulheres e de crianças a usar estas vias aumentou, o total de utilizadores cresceu quatro vezes e, ao contrário do que se pensa, há menos ciclistas a usar o capacete nas ciclovias. Isto denota que há um maior sentimento de segurança nas vias onde foi feito o estudo.
Em todo o caso, o nosso país continua a ter uma taxa reduzida de utilizadores de bicicleta como meio de transporte e os objetivos traçados para 2025 não foram minimamente cumpridos. Em todo o caso, está a ser preparada uma nova estratégia nacional de mobilidade que visa reduzir o número de mortos (só entre 2019 e 2024 o número cresceu 52%).
BICICLETA: A ETERNA IGNORADA
Existem vários motivos para não existirem mais pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte:
- Não sabem andar de bicicleta
- Não se sentem à vontade a andar (falta de agilidade) entre pessoas e outros ciclistas
- Não têm condições em casa ou no emprego/escola para deixar a bicicleta
- Preço dos velocípedes e custos de manutenção
- Sensação de insegurança
- Inexistência de ciclovias nas rotas mais usadas no dia a dia ou ligação entre as existentes
- Falta de interoperabilidade entre os diferentes meios de transporte
- Outras
Como Portugal tem metas para cumprir em termos de descarbonização, a bicicleta é um dos meios prioritários para as deslocações de curta duração (até 15 km). Além disso, como está provado, as bicicletas elétricas resolvem qualquer pendente que apareça no caminho. Além do mais, segundo estudos realizados em países cuja população usa a bicicleta no dia a dia, há uma poupança no meio ambiente, na saúde do utilizador da bicicleta e na sua carteira.
Ao construir ciclovias entre polos urbanizados, empresas, universidades/escolas, pontos de ligação de transportes (comboio, autocarro, barco) e serviços, estamos a oferecer às pessoas a possibilidade de escolher. E aqui já será a pessoa que terá de ponderar qual é a solução mais inteligente para a sua carteira, saúde e meio ambiente. Suspeitamos que a bicicleta será a escolha certa!
Sabemos que existem atritos - pessoas que não dispensam o automóvel, apesar de não ser o mais eficiente em certas condições - e que esta mudança de mentalidade vai durar uma geração, mas é inegável que a escolha tem de ser feita. A Gira, por exemplo, tem um plano de expansão da sua rede, o renting de bicicletas também está a crescer e há municípios, como o de Oeiras, que solicitaram à Infraestruturas de Portugal a gestão da Marginal para poder adicionar uma ciclovia, como foi prometido quando o Orçamento Participativo assim o deliberou.
Não podemos ter processos burocráticos que demoram dois anos e meio, como o que acontece sempre que é necessário licenciar uma estação Gira.
Também cabe aos cidadãos exigir daqueles que os representam uma aceleração de projetos e responsabilização pelas falhas. Vamos mudar este paradigma?






