Ser mulher e atleta profissional de BTT parecem duas coisas de certa forma antagónicas em Portugal. Primeiro, porque a cultura do país parece demasiado formatada para o futebol, segundo porque é extremamente difícil vingar numa modalidade onde existem poucas vagas para tantas potenciais candidatas. A Ana tem a sorte de ter familiares que a apoiam incondicionalmente e, sobretudo, tem aptidões inatas.
Como a temporada da Taça do Mundo de XCO começa já em Maio, aproveitámos para medir o pulso à Ana, analisando os aspetos positivos e menos positivos de ser atleta profissional, conhecer a sua perspetiva sobre a modalidade e analisar o futuro.
Como tem sido a tua experiência na equipa oficial de XCO da Cannondale?
Tem sido uma experiência extremamente positiva e enriquecedora. Todos os dias representam uma oportunidade de evolução, tanto a nível pessoal como profissional. Pertencer à Cannondale Factory Racing é, sem dúvida, um privilégio que encaro com enorme orgulho e gratidão.
Tens tido a oportunidade de competir em provas de elevada dificuldade. Sentes que te aproximas cada vez mais do nível das atletas que estão no top10 mundial?
Sim, sem dúvida. Sei que não é um processo imediato, mas sinto claramente que estou a trilhar o caminho certo. Tenho vindo a aproximar-me, passo a passo, desse nível mais alto, e isso deixa-me muito orgulhosa do trabalho que tenho desenvolvido.
A Jolanda Neff, tua companheira de equipa, é uma das atletas mais experientes na Taça do Mundo. Que ensinamentos ou dicas obtiveste dela?
Felizmente, tenho uma relação muito próxima com a Jolanda, o que torna tudo ainda mais especial. Damo-nos muito bem e partilhamos experiências, dúvidas e aprendizagens no dia a dia. É alguém com quem posso contar, tanto dentro como fora da competição. Com ela, tenho aprendido imenso... Não só sobre a forma de encarar as provas e competir ao mais alto nível, mas também sobre aspetos técnicos da bicicleta e exercícios específicos que me ajudam a evoluir. Para além disso, levo comigo muitos ensinamentos sobre a importância da consistência, da confiança e da mentalidade certa. Sem dúvida, é uma inspiração e uma peça fundamental no meu crescimento, tanto como atleta como pessoa.
Estar numa equipa de fábrica tem, obviamente, aspetos bastante positivos. Podes destacar alguns?
Estar numa equipa de fábrica traz, sem dúvida, inúmeras vantagens que fazem toda a diferença no rendimento e na evolução enquanto atleta. Sinto um apoio muito mais próximo, personalizado e detalhado, o que me permite trabalhar cada aspeto com maior rigor. Temos também a presença de um treinador técnico nos treinos e nos reconhecimentos dos circuitos, algo fundamental para preparar cada prova da melhor forma possível e ganhar confiança em cada percurso. Além disso, há a oportunidade constante de competir ao mais alto nível, lado a lado com as melhores atletas do mundo, o que acaba por elevar naturalmente o nosso desempenho e ambição.
A vida de atleta profissional não é sempre um mar de rosas. O que é que menos aprecias nesta fase? As viagens e as escalas nos aeroportos?
Sinceramente, não há nada que não aprecie! Sinto-me profundamente grata por estar a viver um grande sonho. Ser atleta profissional é, sem dúvida, um privilégio, e procuro valorizar cada momento, dentro e fora da competição.
Do que é que mais tens abdicado na tua vida pessoal para seguir o sonho de ser atleta profissional de BTT?
Passar tempo com amigos e família.
Os percursos da Taça do Mundo estão muito diferentes. Por isso mesmo, as marcas de bicicletas tiveram de adaptar as geometrias, os componentes e inovar. Que aspetos consideras mais preponderantes atualmente nas bicicletas?
Atualmente, considero que as suspensões e os pneus são os dois elementos mais determinantes numa bicicleta de competição. É precisamente por isso que dedicamos muito tempo a testar diferentes configurações, procurando perceber quais as melhores pressões - tanto nas suspensões como nos pneus - e quais os modelos mais adequados para cada tipo de terreno e condição. No fundo, são estes pequenos ajustes que acabam por ter um grande impacto no desempenho e na confiança durante a corrida.
Achas que o XCO em Portugal tem evoluído? Explica porquê.
Na minha opinião, já está estagnado há bastante tempo... Porquê? Sugeria encontrar as respostas nos praticantes de eventos de ciclismo aberto (CPT) de BTT e nas respectivas organizações. Eventos na maioria deles com classificações que estão em ciclo contrário ao do ciclismo oficial de competição sempre com muitos participantes e evolução de organizações.
O que faz falta para atrair mais praticantes femininas?
Acredito que o mais importante passa, acima de tudo, por uma maior divulgação do desporto em geral. Quanto mais visibilidade existir, mais facilmente se desperta o interesse e a curiosidade de novas praticantes. Dar a conhecer a modalidade, mostrar exemplos inspiradores e tornar o desporto mais acessível são passos fundamentais para que cada vez mais mulheres se sintam motivadas a experimentar e a envolver-se.
Em 2025 sofreste uma lesão grave na Alemanha. Foi o teu maior susto numa prova?
Sim, sem dúvida que foi o maior susto que já tive na minha carreira. A queda acabou por resultar num pneumotórax, num traumatismo crânio-encefálico e numa fratura da clavícula, o que tornou tudo ainda mais marcante. Felizmente, o corpo humano tem uma capacidade incrível de nos proteger e, devido à concussão, não me lembro de absolutamente nada do momento da queda, algo que, de certa forma, até ajuda a não criar medo ao enfrentar novamente certos obstáculos. Hoje olho para trás com respeito pelo que aconteceu, mas também com gratidão pela recuperação e pela oportunidade de continuar a fazer aquilo que mais gosto.
Os ordenados das atletas femininas continuam a ser inferiores ao dos masculinos. Achas que é expectável que a situação mude?
Espero sinceramente que essa realidade venha a mudar. O ciclismo feminino tem evoluído muito nos últimos anos, o nível competitivo está cada vez mais elevado e o espetáculo tem vindo a conquistar um público crescente. Acredito que esse aumento de visibilidade e interesse será fundamental para impulsionar uma maior valorização das atletas. Um bom exemplo dessa evolução é a minha própria equipa, que durante muito tempo foi exclusivamente masculina e que, atualmente, já integra também atletas femininas. São sinais claros de progresso, e quero acreditar que, passo a passo, caminhamos para uma maior igualdade no futuro.
As equipas e clubes portugueses, salvo raras exceções, têm dificuldade em angariar patrocínios. Do teu ponto de vista, o que deve ser feito para inverter este cenário?
Quanto maior for a afluência de espectadores, maior será o interesse dos patrocinadores em associar as suas marcas ao desporto. Para isso, é essencial transformar cada competição num verdadeiro evento, oferecendo boas condições e uma experiência atrativa: zonas de alimentação, momentos de entretenimento, brindes e um ambiente envolvente que vá além da competição em si. Com o aumento do interesse e da qualidade da experiência, torna-se mais viável a implementação de bilhetes pagos, contribuindo não só para a sustentabilidade financeira das organizações, mas também para valorizar o espetáculo desportivo como um produto apelativo e digno de investimento.
Sentes pressão por parte da equipa (para ter bons resultados)?
Não, sinceramente não sinto qualquer tipo de pressão por parte da equipa. O foco está muito mais no meu desenvolvimento enquanto atleta, na evolução, na aprendizagem e no crescimento a longo prazo. Existe uma confiança clara de que, ao trabalhar nesses aspetos de forma consistente, os resultados acabam por surgir naturalmente. Esse ambiente dá-me tranquilidade e permite-me concentrar no que realmente importa: evoluir e dar o meu melhor a cada passo.
Que aspetos achas que tens de melhorar?
Acredito que há sempre espaço para melhorar em todos os aspetos. Ninguém atinge um ponto final de evolução... e eu também não. Procuro, todos os dias, ser um pouco melhor em tudo o que faço, nem que seja apenas 1%. Essa mentalidade ajuda-me a manter o foco no processo e não apenas nos resultados. No fundo, estou constantemente à procura da melhor versão de mim própria, dentro e fora da competição.
Quais são os teus hobbies?
Pintar e aprender sobre fisioterapia.
A equipa Cannondale publica regularmente fotos vossas não só em competição, mas também em estágios e mesmo em festas. Faz falta este “lado B”, para que a competição não se torne demasiado monótona?
Acho que a competição, por si só, nunca se torna monótona. No entanto, considero que este “lado B” é fundamental. Vivemos numa era digital, em que as pessoas têm cada vez mais interesse em conhecer o dia a dia de uma equipa profissional e em ver a realidade tal como ela é, dentro e fora da competição. Partilhar estes momentos ajuda a aproximar o público do desporto e a mostrar o verdadeiro ambiente que vivemos enquanto equipa.
O lado psicológico de um atleta por vezes é descurado. Tens acompanhamento especializado)?
Sim, tenho. Considero cada vez mais importante cuidar da vertente psicológica no desporto, e é algo com que já conto desde nova. Acredito que faz uma grande diferença no equilíbrio, na performance e na forma como lidamos com os desafios do dia a dia e da vida de atleta.
Quais são os teus planos quando abandonares a competição?
Procuro viver mais o presente. O futuro fica para o futuro.
Para terminar, que mensagem gostarias de enviar aos teus/tuas fãs?
A mensagem que deixo é simples: nunca desistam dos vossos sonhos, por mais distantes ou difíceis que possam parecer. Continuem a lutar pelo que querem, mesmo quando surgem obstáculos, e mantenham-se sempre fiéis aos vossos valores e à vossa humildade. Acredito que o universo acaba por recompensar quem persiste, quem trabalha com dedicação e quem faz o bem com intenção genuína. E, acima de tudo, pedalem com paixão, porque é a paixão que nos mantém no desporto.