Se a geração anterior foi a da revolução eletrónica, a S-Works Epic 9 é a da maturação conceptual. Colocámos à prova a versão topo de gama para perceber se a Specialized conseguiu tornar o que era excelente em algo verdadeiramente perfeito.
GAMA MAIS REDUZIDA E FOCADA
Se a transição para a Epic 8 já tinha fundido os conceitos de XC puro e Downcountry, a gama da Epic 9 encolheu ainda mais, respondendo ao feedback do mercado e dos atletas da Taça do Mundo. Desaparece a distinção EVO e World Cup e a Epic 9 foca-se quase exclusivamente no ecossistema de 120 mm onde a montagem é a grande distinção. A gama conta agora com apenas 4 modelos completos e um Kit quadro, altamente dependentes da eletrónica, com a excepção da mais económica Epic 9 Expert (por razões óbvias) e a exclusiva Epic 9 Ultralight LTD, onde o peso ditou o minimalismo.
O QUE MUDA NA EPIC 9?
Visualmente, a Epic 9 mantém as linhas fluidas da sua antecessora, mas há refinamentos de engenharia cruciais no quadro FACT 12m.
E sem dúvida que além da questão estética, uma das mudanças que mais chama a atenção é a dieta de que foi alvo, não só como quadro como também no seu todo, ou não vivêssemos numa era em que já não basta pegar num quadro e montar os melhores componentes,mas onde a integração é grande parte do sucesso quando se trata de peso e comportamento.
O grande trunfo comercial da marca é o fato de ter neste momento o quadro de XC de produção mais leve do mercado, com apenas 1589g (quase o peso de um quadro hardtail há não muitos anos), o que a coloca 129g abaixo da concorrência e 11.4% mais leve que a Epic 8.
Isto dá origem a uma bicicleta incrivelmente leve, a Ultralight LTD, de apenas 8.5 kg segundo a marca. A versão que testámos, com Flight Attendant, já ultrapassa ligeiramente a barreira dos 10kg em tamanho L e já com a SWAT, 2 grades de bidon e o suporte do GPS. E permite mesmo na versão Expert de entrada de gama ter uma bicicleta nos 11kg, impressionante se pensarmos que se trata de uma suspensão total com 120mm de curso, rodas 29, pneus 2.35 e espigão telescópico!
VÍDEO
EVOLUÇÃO DO FLIGHT ATTENDANT
Uma das novidades na S-Works não está no hardware visível, mas sim no "cérebro". A Epic 9 estreia a nova atualização do ecossistema RockShox Flight Attendant. O algoritmo está mais inteligente: em vez de apenas reagir aos impactos e à potência do pedal, o sistema cruza os dados de cadência e aceleração de forma mais agressiva. Além disso, o sistema aprende com o teu estilo de pilotagem e também pode ser ajustado na maneira como o aplica. O tempo de resposta entre os modos Wide Open e Magic Middle foi reduzido para tornar o comportamento das suspensões mais fluido.
OTIMIZAÇÃO DO PIVÔ TRASEIRO, SWING LINK E FLEX-STAY
Um dos pontos mais revisto foi a zona dos pivôs inferiores e das escoras superiores (flex-stay). A Specialized redesenhou a união do triângulo traseiro perto do eixo pedaleiro. O novo design elimina aquela pequena reentrância da Epic 8 onde as pedras e a lama se acumulavam, melhorando a longevidade dos rolamentos e reduzindo ruídos indesejados em dias de chuva. Além disso, o pneu traseiro tem mais espaço disponível.
Surge também um novo design do Swing Link para oferecer uma resposta mais suave do amortecedor, melhorar a tração e o controlo. A metade inicial do curso está mais sensível enquanto o fim do curso está mais progressivo e pensado para controlar os bottom-outs.
NOVO SISTEMA SWAT
O compartimento de armazenamento está agora fora do quadro! E esta foi uma decisão que já criou algo burburinho. Por um lado, para quem anda sempre com um kit atrás, dá jeito ter um compartimento escondido e que levava mais que esta nova caixa externa. Por outro lado, a “saída” do SWAT para fora do quadro traz várias vantagens. Permitiu redesenhar o tubo diagonal sendo o quadro por isso mais leve. E quem não anda com a “tralha” atrás, pode deixar o SWAT externo em casa nos dias que não precisa e poupar ainda mais algum peso, tendo agora uma opção que antes não existia. Além disso o acesso é mais fácil e rápido, sem precisar de retirar um bidon e a grade/tampa. E continua a haver espaço para 2 bidões de 750 ml.
COMPORTAMENTO E CONDUÇÃO
A Epic 9 mantém os competentes 120mm de curso na frente e atrás, mas a dinâmica geral da bicicleta foi refinada.
A geometria (com o ângulo de direção agressivo herdado da geração anterior) continua a dar uma confiança tremenda a descer. No entanto, a Epic 9 parece ter o centro de gravidade ligeiramente mais equilibrado. Em trilhos sinuosos e ganchos apertados (singletracks de floresta), a bicicleta reage de forma mais intuitiva aos impulsos do corpo, exigindo menos correções de trajetória do que a Epic 8.
A aqui surge um dilema: é que esta bike “embala” com tamanha confiança a descer que chegamos a um ponto em que começamos a tentar obter mais do que ela pode dar e começamos a sentir algumas limitações. Uma delas refere-se aos pneus. São sem dúvida um excelente compromisso a rolar e a subir, especialmente nesta combinação do Fast Track à frente e o Air Trak atrás. E tendo em conta o seu baixo peso nesta medida 2.35, por algum lado havia de haver um compromisso. E isso sente-se na rigidez dos mesmos. Em teoria são os pneus ideais para esta bike. Suficientes na maioria das situações. Aqui a questão é que quem puder vai levar esta bike aos limites e o dos pneus começa a sentir-se antes do restante equipamento, não só porque perdem um pouco de direção a curvar no limite, mas também porque a sua carcassa mais fina exige mais ar para ir a fundo, ou corremos o risco de danificar um aro.
AINDA É UMA BICICLETA DE XC?
A polivalência é um dos grandes trunfos desta Epic. A amplitude de situações em que brilha é enorme. Mas, tal como as pistas de XC que evoluíram para o lado agressivo, também esta Epic seguiu esse caminho. A subir pode não estar ao nível de uma hardtail ou de uma bike com um ângulo de direção mais fechado, em que a frente vai mais colada ao solo e dá mais confiança e neutralidade a subir, especialmente com ganchos apertados. Mas aqui a palavra de ordem é compromisso. E numa suspensão total com 120 mm de curso que desce como muitas bikes de trail, a postura e a capacidade que mantém de subir com rapidez, agilidade e eficácia é deveras impressionante. E a verdade é: quem é que hoje em dia ainda procura uma verdadeira “trepadora” que depois deixa a desejar em confiança e capacidade para descer?
COMPORTAMENTO DO SISTEMA DE AMORTECIMENTO
Onde a Epic 9 realmente brilha em comparação com o modelo anterior é no comportamento do amortecedor traseiro e da suspensão RockShox SID Ultimate Flight Attendant. A leitura do terreno está mais suave. Na Epic 8, em terrenos mistos, o sistema às vezes hesitava ligeiramente entre o modo aberto e o intermédio. Na Epic 9, essa transição está bastante melhor: a suspensão adapta-se com uma suavidade incrível, colando a roda traseira ao chão nas subidas técnicas sem que se sinta qualquer perda de tração. A descer, ainda sentimos uma ligeira diferença entre o primeiro impacto e os sucessivos. Mas agora é pouco perceptível. É apenas uma pequena nuance num sistema que por si só pode ser a solução para voltas muito mais eficazes, onde se tira mais proveito da máquina.
Para os mais experientes, que gostam de comandar as operações, existe sempre a possibilidade de utilizar as suspensões no modo manual, escolhendo a posição de acordo com a necessidade e o piso. Mas isso exige atenção e experiência para se poder tirar o melhor partido. Para quem se quer focar noutros aspetos da pilotagem e noutros botões (mudanças, dropper post e ainda tirar umas selfies), o modo automático toma conta do recado e permite-nos retirar quase 100% do que estas suspensões podem oferecer e sem ter de pensar… E isso sim, dá que pensar!!
INTEGRAÇÃO NA ORDEM DO DIA
Como falámos no início, hoje em dia para se criar uma máquina de topo não basta pegar num quadro e escolher os melhores componentes que o mercado tem para oferecer. Desenhar uma bicicleta de uma ponta à outra com um objetivo, torna-se essencial se queremos que todos os componentes estejam otimizados para funcionar em conjunto. O mais notório são as suspensões, que apesar de serem da Rock Shot foram adaptadas à “telemetria” da Epic. Depois ao nível das rodas, estas Roval Control World Cup contribuem com as rápidas acelerações e um baixo peso total da bike, ou não pesassem uns impressionantes 998g já com fitas e válvulas! A sua largura interna de 28.5 mm garante não só rigidez estrutural como permite ao pneu assumir uma forma mais redonda e por isso um comportamento mais eficaz dos pneus.
Obviamente que o guiador cumpre o seu papel, ainda que não esteja presente em todas as versões, e depois temos ainda outros componentes como os travões ou o grupo que já são da Sram e não foram desenhados especificamente para a Epic, mas dão o seu contributo a vários níveis, resultando num pack super eficaz, leve, e visualmente atrativo.
VEREDICTO
A Specialized S-Works Epic 9 não veio para revolucionar o mercado como a Epic 8 o fez, mas sim para consolidar e polir a fórmula vencedora da marca. Ao corrigir os pequenos pecados de juventude do quadro anterior — como a acumulação de lama nos pivôs — e ao atualizar a rapidez de resposta da inteligência eletrónica da RockShox, a Specialized criou uma bicicleta de Cross-Country mais eficaz, leve e polivalente.
Se já tens uma Epic 8, o salto pode não justificar o investimento, mas se vens de uma plataforma anterior (com ou sem Brain) ou queres saltar de uma plataforma antiquada para o auge do rendimento técnico no XC moderno, a Epic 9 é sem dúvida uma opção incontornável no atual panorama.
Aspetos positivos: Polivalência de uso; possibilidades e automatismo do Flight Attendant; geometria super acertada e leveza tendo em conta as capacidades.
Aspetos a melhorar: Flight attendant requer muita afinação e testes iniciais; quatro baterias que temos de gerir em termos de carga.
FICHA TÉCNICA









