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Volta ao Algarve: Dentro da Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

Queres saber como é o dia a dia numa equipa profissional de ciclismo portuguesa? Juliana Reis é a responsável de comunicação da equipa Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua e, neste artigo, ela mostra os bastidores da formação lusa durante a Volta ao Algarve 2026.

Juliana Reis

Volta ao Algarve: Dentro da Tavfer Ovos Matinados Mortágua
Volta ao Algarve: Dentro da Tavfer Ovos Matinados Mortágua

Esta é a terceira edição da Volta ao Algarve que passo com a Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua, a equipa para a qual desenvolvo a estratégia de comunicação e os conteúdos que chegam aos nossos apoiantes e, acima de tudo, nos representam perante os nossos patrocinadores.

Trabalhar com a Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua é sempre um desafio. A estratégia das corridas é planeada com antecedência: “O que posso fazer de diferente?", qual pode ser a minha estratégia para chegar a mais fãs de ciclismo, como podemos mostrar e marcar a diferença das demais. Um processo que é acompanhado pelo manager da equipa, Xavier Silva.

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Enquanto os atletas sobem para a bicicleta e representam a equipa na estrada em cima da bicicleta, eu, no carro, tenho um objetivo: passar o espírito de sacrifício e a combatividade dos nossos atletas para o público, porque a corrida não é só aquilo que se vê na televisão. A última hora de corrida não cobre todos os desafios de superação que os atletas têm de enfrentar, e aqui entra a comunicação.

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A VOLTA AO ALGARVE

O dia começa cedo, pequeno-almoço com a equipa, a hora de saída já está marcada, e antes de sair há sempre alguns preparativos que não podem faltar: analisar as publicações e ideias para o dia, fazer a publicação da etapa (quando não está já agendada) e rever mais uma vez se tenho todo o meu material na mala – máquina, câmara de vlog, powerbanks, cabos. Conseguem imaginar o peso?

Partimos para a partida e aí encontramos as caras conhecidas que nos acompanham: patrocinadores, amigos, familiares e fãs (alguns deles vêm desde Mortágua). Depois de uns minutos, passamos pela apresentação da equipa, mais uns vídeos e umas fotos, e estamos prontos. Enquanto os ciclistas seguem para a corrida, eu sigo para o Carro 1 (com o Gustavo Veloso, Diretor Desportivo) ou o Carro 2 (com o Xavier Silva, que agora assume funções de Diretor Desportivo Adjunto).

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Às vezes, o meu dia é entre estes dois carros; numa troca de bicicleta, troco de carro, e aí acompanho a corrida, mais ou menos longe da cauda do pelotão. A estratégia é clara: na reunião de briefing, o Gustavo Veloso mostra o percurso e os pontos-chave, seguido atentamente pelos olhos dos atletas, e o mesmo acontece no carro através do intercomunicador, onde as indicações são dadas e os atletas comunicam entre si.

AS ETAPAS

Na primeira etapa, tivemos Bruno Silva na fuga. O objetivo era claro: mostrar as cores da equipa, e isso foi feito! Bruno Silva conseguiu manter-se na fuga, e o meu trabalho? Mostrar esse esforço – o prémio da combatividade na Volta ao Algarve; naquele dia, foi o nosso objetivo, mostrar ao público o esforço e o espírito combativo do Bruno Silva. Nesse dia, acabámos por ir ao pódio com o nosso atleta, uma representação clara do público que nos apoia e segue de perto.

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Voltamos ao hotel, na Volta ao Algarve, o hotel é sempre o mesmo, o que logicamente ajuda bastante todo o staff. Voltamos às lides pós-etapa: os atletas vão para a massagem, os mecânicos tratam das bicicletas e deixam-nas perfeitas para a etapa seguinte, e eu vou para o quarto editar mais um episódio do Alta Voltagem.

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ALTA VOLTAGEM

O Alta Voltagem, minissérie de YouTube que segue a equipa de perto em todas as etapas, nasceu da vontade da equipa querer envolver mais os fãs na dinâmica da equipa durante as corridas. Surgiu na Volta a Portugal de 2023, começámos a ganhar uma base de fãs, e mantivemos a série. Algo completamente diferenciado em Portugal, um pouco a seguir aquilo que as equipas World Tour fazem, e é um pouco a dinâmica que se faz lá fora que queremos trazer para Portugal, e crescer o ciclismo em Portugal.

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Depois do Alta Voltagem editado e publicado, seguimos para o jantar – algo que poderá ser considerado uma curiosidade: é que na nossa equipa não há telemóveis à mesa, e é um momento de união de equipa para estarmos juntos e passarmos um bom momento. Depois do jantar (e mais uns minutos de conversa com a equipa, dependendo do tempo que tenho), sigo para o quarto para publicar as últimas notícias e escrever o comunicado de imprensa que segue para os meios de comunicação em Portugal e para os nossos patrocinadores, mais uma publicação, menos uma publicação. Hora de preparar tudo para amanhã e ir dormir. E é assim um ciclo que repetimos todos os dias.

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Na segunda etapa, o nosso representante na fuga foi Leangel Linarez, uma etapa mais dura com o Alto da Fóia pela frente, e muito público também. Na terceira etapa, Contrarrelógio – é um dia em que há mais tempo para tudo – , fui a pé com a Leonor Silva (Presidente do Velo Clube do Centro) para o percurso e ainda parei junto ao autocarro da Ineos Grenadiers para tirar uma foto com o Geraint Thomas (sou fã incondicional de ciclismo e, claro, aproveitei para dois dedos de conversa).

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DINÂMICA DO CONTRARRELÓGIO

A partida e chegada não eram no mesmo sítio, o que tornou a logística muito mais complexa: como a equipa tem uma trotinete, facilitou bastante! Muito stress antes da partida do nosso primeiro atleta, uma vez que os comissários (transversal a todas as equipas) pediram alterações às bicicletas. Digamos que era possível sentir o nervosismo dos atletas e dos próprios mecânicos de terem de fazer alterações de última hora, e para terem uma noção, o nosso autocarro estava a quase 20 minutos da partida.

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Segui para a partida para acompanhar o contrarrelógio do Daniel Dias, no carro com o Gustavo Veloso. Para mim, ouvir o Gustavo no rádio é sempre incrível: atenção a todos os pormenores, direção do vento, trajetória mais curta, tudo que pode ajudar os nossos atletas a fazer a melhor performance possível.

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O contrarrelógio não correu da melhor forma ao nosso novo atleta: o apoio dos braços desceu e a sua posição mudou, perdendo ganhos aerodinâmicos. O que me surpreendeu foi, no fim da etapa, ter pedido uma declaração ao Daniel e ele admitir que ter o Gustavo como diretor desportivo era ótimo, que ele num contrarrelógio nunca tinha tido este tipo de apoio e indicações e que isso o deixa entusiasmado para a época.

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Um a um, os nossos atletas terminavam o seu contrarrelógio e chegava a altura de ir para o hotel. O dia foi mais curto, deu para relaxar um pouco.

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DIA AGRIDOCE

Quarta etapa, dia agridoce para a equipa. Começámos com Gonçalo Carvalho na fuga, uma fuga de 9 unidades que foi reduzida a 3 com um ataque da frente da corrida, ataque esse que o Gonçalo Carvalho seguiu. Este grupo já estava a ganhar 1 minuto aos restantes elementos da fuga... Mas aí o azar bateu-nos à porta: a corrente do Gonçalo saltou e torceu. Nós estávamos no Carro 2, atrás dos restantes membros da fuga inicial, o que nos levou a demorar imenso tempo a chegar ao Gonçalo, e depois foi necessário trocar a sua bicicleta.

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Era completamente visível na sua cara a desilusão do que estava a acontecer: ele estava no grupo da frente, com boas sensações, e a parte mecânica é que falhou. O ciclismo acaba por ser mesmo isto: uma tríade (ciclista, bicicleta e sorte) em que a sorte nem sempre está do nosso lado. O Gonçalo tentou voltar à fuga, mas inevitavelmente foi apanhado pelo pelotão. Mesmo depois de ser apanhado pelo pelotão, tentou novamente saltar para a frente na primeira passagem pela meta, mas o esforço anterior já se fazia sentir e a equipa também estava com objetivos ao sprint com Leangel Linarez.

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A votação para o prémio da combatividade incluía o Gonçalo, e mobilizámos as nossas redes de contactos com um objetivo: tentar levar o Gonçalo ao pódio. Hora do sprint: Leangel bem colocado, bom trabalho por parte da equipa na colocação nos últimos 15km, momento de azar, corrente salta nos últimos km. 12.ª posição para o Leangel na etapa, não o final que estávamos à espera.

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Mas a etapa não acabou aí. Gonçalo chegava à meta e recebeu a notícia que ia ao pódio no prémio da combatividade, a sua cara mostrou todo o significado que isto tinha para ele. Os colegas viram e, naqueles momentos, ficaram ali abraçados. E acho que isto mostra muito o espírito da equipa: uma equipa que vai além dos resultados, que festeja os pequenos feitos dos seus colegas. Fomos ao pódio graças ao público, familiares e amigos que criam uma união, equipa unida em todos os sentidos, dentro e fora da estrada.

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ÚLTIMA ETAPA

Última etapa, subida ao Alto do Malhão, um dia que Gustavo Veloso definiu como “dia à morte, como se tivessem cães raivosos atrás deles”. A realidade é que a primeira hora da corrida foi percorrida a velocidades estonteantes. E a fuga? Nem perto de se formar. Eventualmente, algumas equipas estrangeiras conseguiam ganhar distância, com Alaphilippe na fuga (como fã, admito que senti um frio na barriga: ele está de volta? – sim, sou fã, até tirei uma foto com ele na apresentação).

Foi uma etapa animada, devo admitir. No pelotão, tínhamos ainda Rafael Barbas, sub-23 da equipa, que demonstra bons resultados e que Gustavo Veloso considera um grande candidato a dar que falar não só em Portugal. Acabámos a etapa, onde Rafael Barbas mostrou uma boa preparação física, fruto do trabalho da pré-época e com bons indicadores para a época. Desci o Alto do Malhão a pé, depois de tirar fotos durante a 2.ª passagem, e aí meti-me a caminho com algumas paragens para falar com caras conhecidas, e lá no último quilómetroapanhei boleia para o autocarro da equipa. Malas feitas, hora de ir para casa.

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E assim termino mais uma edição da Volta ao Algarve, com muito orgulho por estes dois pódios, o top 15 ao sprint que nos fez vibrar, a estreia do Rafael Barbas nesta corrida que promete, rios de fotos e vídeos que captam o pulsar da estrada, cinco episódios do Alta Voltagem que nos unem aos fãs como um abraço apertado, seis press releases que ecoam a nossa garra, muitas memórias e os silêncios do esforço partilhado.

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