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Não "afoguem" o João Almeida

Muita tinta tem corrido nos últimos dias acerca do João Almeida. Numa fase em que o jovem luso dá nas vistas, não é a própria equipa que pressiona o ciclista, mas sim os seus conterrâneos...

Não "afoguem" o João Almeida
Não "afoguem" o João Almeida

ARTIGO DE OPINIÃO

Estamos há um ano em plena pandemia e os temas do dia a dia deambulam entre o Coronavírus e um ou outro escaparate como os resultados de relevo do João Almeida. O ciclismo ganhou novos adeptos, muitos deles desconhecedores do mundo do ciclismo. A escassez de notícias fora do âmbito do vírus, a procura por algo que nos aumente a autoestima e a humildade bem como a surpresa com os resultados de João Almeida catapultaram-no para um lugar no estrelato apenas equiparável às vitórias de Rui Costa há alguns anos.

Esta nova explosão de fãs do ciclismo - alguns deles passaram a gostar da modalidade devido ao próprio João Almeida - acarreta também aquilo que de mau o desporto debita: a exigência de resultados. Todos nós somos "treinadores de bancada", mas poucos sabem o que realmente se passa no seio de uma equipa World Tour e quais são as prioridades.

Sejamos realistas: o João é um diamante por lapidar. Teve uma boa formação e em 2020 estreou-se no World Tour, isto com apenas 22 anos. Temos de dar tempo ao tempo e não exigir resultados ou esperar que de um momento para o outro passe a ganhar etapas de alta montanha a especialistas como Adam Yates. O João vai ficar um ciclista ainda mais completo, mas temos de aceitar que ele vai falhar.

Artigo de opinião: Não "afoguem o João Almeida

 

Não é apenas no futebol, também no ciclismo temos quem destile ódio e coloque pressão sem compreender minimamente a modalidade e os seus meandros. O ciclismo profissional não é um jogo viciado. Ganha (na maior parte das vezes) quem no somatório das etapas (se for o caso) for o mais forte e o que souber ler melhor a corrida, antecipando os pontos fortes dos adversários e ocultando ou minimizando as suas próprias fraquezas.

Há também muita pressão psicológica, muita "conversa" no seio do pelotão, tentando enfraquecer psicologicamente os adversários. Pode não passar cá para fora, mas há muitos encontrões, há um sentimento de pertença e quem ainda é novo no meio pode sofrer no meio de tanta disputa territorial. Faz parte do desporto, como sempre fez. Há também a parte dos egos, os olhares fixos, a tentativa de pressão que muitas vezes é feita sobretudo por ciclistas das equipas mais fortes. Nada disso é falado, mas foi-nos confessado inúmeras vezes por vários ciclistas que entrevistámos ao longo da última década.

Muitos criticam a equipa do João Almeida. Mas muitos desconhecem que, atualmente, pode ser a melhor equipa que o João poderia ter escolhido. Não o digo por ser a equipa que lidera o ranking UCI, mas sim pela estabilidade a longo prazo, pelos dirigentes, pela história e pela cultura. A Deceuninck-Quickstep não pressiona, deixa os seus ciclistas evoluir, não corta etapas, deixa-os fracassar e madurecer, cair e voltar a levantar. Isso é necessário num ciclista e temos inúmeros exemplos disso.

É uma equipa belga, e como tal os objetivos principais são outros, se compararmos, por exemplo, a uma INEOS. E o que é que isso tem de mal? Tenho lido vários comentários depreciativos à forma como a Deceuninck-Quickstep tem gerido o calendário do João. Pergunto porquê. O João - como qualquer jovem promissor - tem de ter tempo para amadurecer, para testar as suas capacidades em diferentes tipos de provas e é natural que seja a equipa a definir a sua estratégia. A nós, enquanto fãs da modalidade, cabe-nos o papel de não "afogar" o ciclista. Há quem pense que ele nem tem tempo para ler os comentários, mas acreditem: os ciclistas consultam as redes sociais nas viagens de autocarro entre as chegadas e o hotel, enquanto estão a ser massajados, quando estão a descansar, etc.

A pressão psicológica que um ciclista sofre é demolidora e por vezes leva à depressão. No World Tour ainda mais, pois requer viagens de avião constantes, a maior parte delas sozinho, com escalas pelo meio. Agora imaginem um jovem de 22 anos, numa equipa belga, em que já existem grupos definidos (que é perfeitamente normal). Por mais acompanhado que esteja, o João está quase sozinho. Existe um conceito dentro da equipa de matilha, em que todos trabalham para o mesmo, mas durante as 4 ou 5h de prova, o João, por mais ajuda que tenha, está sozinho. Imaginem a pressão.

Ser ciclista não é fácil. Ser ciclista numa equipa estrangeira é ainda mais difícil. As equipas belgas têm as suas particularidades, disso não haja dúvidas, mas poucas têm a capacidade e a influência da Deceuninck-Quickstep. A veterania dos diretores, o historial da equipa, o clube de fãs e o conceito empresarial/corporativo são os pilares de um dos projetos desportivos mais sólidos do ciclismo mundial, até mais do que a própria INEOS, considerada a equipa com o maior orçamento do mundo.

Muitos exigem que o João mude de equipa, outros exigem que seja a própria equipa a mudar as suas prioridades, mas todos se esquecem que desde 2020 isto tem sido analisado pela direção. Uma equipa não muda de um dia para a noite. Não passa de uma estrutura tendencialmente focada nas Clássicas (lembramos que para os seus patrocinadores é mais importante ganhar os Grandes Monumentos do que uma prova por etapas) e ganhar etapas para uma equipa vencedora de Grandes Voltas. Além disso, o risco é tremendo quando se aposta tudo somente numa Grande Volta (contratando um bloco de trepadores para ajudar o João ou o Remco Evenepoel). No fundo seria como puxar o cobertor para cobrir essa parte (apostar num Tour, por exemplo), mas deixando destapada a outra parte (as vitórias ao sprint e um bloco compacto para provas de um dia).

Há equipas que mudam de estratégia, como o caso da Jumbo-Visma nos últimos anos, mas essa metamorfose demora anos e muito (mas mesmo muito) dinheiro. Além disso, os patrocinadores têm de aprovar esse projeto, pois são eles que injetam o dinheiro. Ou seja, se por exemplo a Deceuninck-Quickstep quiser mudar drasticamente o plantel da sua equipa, focando-se mais nas Grandes Voltas, é altamente provável que para manter os patrocinadores principais os mesmos tenham de acreditar nesse projeto, caso contrário a direção terá de procurar outros. Não é ficção, é a realidade.

Passar de um "all rounder" que no fundo é aquilo que o João Almeida representa enquanto perfil de ciclista, para um voltista, implicará uma mudança drástica. Terá de perder ainda mais peso (lembramos que o João pesa 63 kg quando está em forma), o que poderá implicar perder potência no contrarrelógio, por exemplo. Essa mudança, por aquilo que temos visto em alguns ciclistas, é dura e complicada, não só a nível físico como psicológico. E exigir isso nesta fase da sua vida, não seria demasiado pesado? Claro que sim. O João ainda está a conhecer o meio World Tour, está a "medir-se" com os outros ciclistas. E, como é natural, ainda terá de enfrentar muitas etapas e experimentar diferentes corridas para ter a noção da resposta que o seu corpo consegue dar. Para trepar melhor e mais rápido terá de subir várias vezes essas mesmas subidas (e não será vivendo em Portugal que o conseguirá fazer), para evoluir terá de conviver com os melhores, por isso temos de o deixar respirar, deixar evoluir, deixar crescer.

Chega de exigências descabidas, chega de pressão desnecessária e chega de comparações impossíveis. O João terá de percorrer sozinho o "caminho das pedras", e só ele poderá definir o seu rumo. Não é necessário nós próprios sermos também algumas dessas pedras no seu caminho, pois a estrada já é torta o suficiente...

Boa sorte, João. A estrada é toda tua e nós cá estaremos para te apoiar, nas vitórias e nas derrotas.

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