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GRANDE ENTREVISTA: Juan Ayuso

Juan Ayuso está numa nova fase da sua vida, agora que assinou contrato com a Lidl-Trek. Não lhe falta ambição nem ousadia, mantendo intacta a coragem de sempre para conquistar o mundo, agora livre de correntes que o prendiam.

AINARA HERNANDO (DESDE JÁVEA, ALICANTE). FOTOS: RAFA GÓMEZ / SPRINT CYCLING AGENCY

Entrevistámos Juan Ayuso
Entrevistámos Juan Ayuso

Nas encostas da Cumbre del Sol, a porta da casa da família Ayuso abre-se cheia de alegria. Dá gosto uma receção assim. María, a irmã mais velha, tinha acabado de chegar após passear a Trufa; Fénix, o enorme e bonacheirão pastor-alemão, também nos recebeu alegremente e Javier, o pai, ficou logo alerta! Pouco depois chegou Susana, a mãe. Depois surgiram Laura e Juan, que rapidamente trocou de roupa para exibir, orgulhoso, as suas novas cores, agora que representa a Lidl-Trek.

Estas são as primeiras fotografias de uma nova era que, para toda a família, representa a sua contratação pela Lidl-Trek. Juan ri durante a entrevista. Ri muito, descontraído. Fizemos a sessão fotográfica na belíssima Cala Granadella e depois a entrevista decorreu na sala da sua casa, com o mar Mediterrâneo como pano de fundo.

Antes de a entrevista começar, Juan mandou toda a família subir para o andar de cima. “Assim não me consigo concentrar”, diz-lhes. 

Juan Ayuso foto 5

VERMELHO, AMARELO E AZUL

— Ano novo, cores novas. Como te vês ao espelho?
— Nos primeiros dias, sobretudo quando fui à Alemanha para o estágio e vesti o equipamento pela primeira vez, ao olhar-me ao espelho pensei: “Ui, enganei-me”, mas não… Já lá vão algumas semanas, embora ainda não me tenha visto verdadeiramente, porque as vossas fotos são as primeiras em ação que me fazem.
 
— As cores trazem também novas ilusões?
— Sim, mais do que novas, voltam a realçá-las. Sempre tive a vontade de mostrar a melhor versão de mim próprio. E sinto isto quase como o primeiro ano em que fui profissional: tudo é novo e ainda tenho muitas coisas por descobrir. Não diria que mudam as minhas ambições, porque o meu objetivo — ser a melhor versão de mim mesmo — mantém-se.
 
— É uma sensação semelhante à de quando passaste a profissional?
— Sim, mas por outro lado, todos os anos tive estímulos novos. Em 2025, apesar de ter sido uma época estranha, corri o meu primeiro Giro e isso, desde a pré-temporada até todo o caminho até Itália, tornou-o muito entusiasmante. No ano anterior foi a minha primeira vez no Tour, e também foi muito bonito porque era uma estreia. Depois vieram as duas Vueltas que fiz. Houve sempre algo que tornava cada época especial, pelas novas vivências. Esta é uma das maiores mudanças, mas sempre contei com esse tipo de emoção, essa sensação de estar a viver algo diferente.
 
— O estímulo pode resumir-se numa palavra: libertação?
— (Pensa durante alguns segundos) Umm… não lhe chamaria isso. Numa só palavra é difícil, porque diga-se o que se disser pode ser tirado do contexto, mas diria confiança e ambição. As duas.
 
— Mas ambição sempre tiveste.
— Isso é verdade. Mas desta vez junta-se às expectativas da equipa e, nesse sentido, sinto-me mais apoiado.
 
— A remar na mesma direção?
— Sim, exatamente. Poder estar num ambiente novo onde sinto que sou realmente valorizado e desejado. É uma espécie de libertação por vir de onde vim.
 
— O que é que ambicionas atingir em 2026?
— Antes de mais, habituar-me a ver-me de vermelho, amarelo e azul. Acho que, como ciclista, não vou mudar muito. Vou a todas as corridas em busca do melhor resultado, seja para mim ou para a equipa. E continuar essa progressão que tenho feito ao longo de todo este tempo. Vamos ver se esta época dou mais um passo em frente.
 
— Já não há ninguém a "prender-te"?
— Não (ri-se). A mensagem da equipa é muito clara e, em nenhuma corrida, terei problema em ajudar um colega se ele estiver bem. Mas não quero falar do passado. Vejo que a equipa tem as ideias muito claras: quando for para ir atrás de determinadas coisas, vai-se atrás delas; se não, far-se-á outra coisa. Enquanto as mensagens forem claras, não haverá problemas.
 
— Gostas de sentir a responsabilidade que vais ter a partir de agora?
— Sempre a tive comigo. Este ano um pouco mais, porque a Lidl-Trek fez uma aposta muito forte e sinto que tenho de responder na estrada; foi para isso que me trouxeram. Mas não é algo diferente daquilo a que estou habituado. Convivo bem com isso. Nem me ajuda, nem me prejudica. Estou habituado… bom, logo veremos no Tour, talvez aí te diga: “Estou-me a borrar todo” (ri-se).
 
Que expectativas tens quanto ao Tour?
— O sonho é ganhá-lo um dia. É preciso ser realista: o Tadej mostrou nos últimos dois anos que está um patamar acima e pensar que vou ganhar o Tour não faz muito sentido. Não é que não pense nisso, porque sou uma pessoa ambiciosa, mas quando defino objetivos sou otimista e realista ao mesmo tempo. Este ano, para mim, isso traduz-se em tentar estar no pódio, que é o primeiro passo na minha progressão. Acho que é suficientemente ambicioso.
 
Juan Ayuso foto 2

 

— Onde te posicionas entre Pogacar, Vingegaard, Evenepoel…?
— Para já, mais abaixo. Não tenho qualquer problema em dizê-lo, é óbvio. Se comparares o palmarés deles com o meu, não tem nada a ver. Penso que, oxalá, um dia possa lá chegar e depois há a carta que tenho guardada, que é a minha idade: sou mais novo do que eles e veremos onde posso chegar dentro de dois ou três anos. Depois aparece o Seixas e outros, que são mais novos do que eu, e aí… (ri-se), mas ainda não estou a esse nível, evidentemente. Espero poder lá chegar dentro de um ou dois anos.
 
— Quem são os teus rivais diretos?
— O Lipowitz conseguiu o pódio no Tour de 2025 e é um claro candidato. Há uma lista de nomes tão longa que depois quem eu não mencionar e me ganhar vai fazer-me ficar mal. O Remco, em grandes voltas, não é o mesmo que nas corridas de um dia. E nas grandes voltas temos de estar lá.
 
— Como se dá esse salto para estar com os melhores?
— Se houvesse uma resposta clara, ou não funcionava ou era demasiado fácil. O ciclismo está cada vez mais complexo, embora, no fundo, implique fazer muito bem coisas simples: comer bem — que não é só comer frango —, pesar tudo, saber que suplementos tomar a cada hora, etc. Mas continua a ser algo simples, que é comer. É aí que está o segredo. Encontrei na Lidl-Trek um grupo que me vai tirar muito trabalho de cima. Confio neles, e isso torna tudo mais fácil.
 
— Para além das polémicas, de tudo o que se falou ao longo de 2025, das 16 vitórias do teu palmarés, oito foram conquistadas na época passada.
— O Luca — Guercilena, manager da Lidl-Trek — já me disse que este ano, no mínimo, dez (ri-se). Faltou-me uma geral nas grandes voltas, que é onde tenho de me tentar afirmar, mas em 2024 consegui vitórias importantes, apesar de se ter falado numa má temporada. Em 2025 houve muito ruído por tudo aquilo que todos sabemos, mas ganhei mais corridas e de maior nível. Venci nas duas grandes, algo que nunca tinha conseguido. O meu sucesso mais marcante continua a ser o pódio na Vuelta, mas a última época supera largamente essa.
 
— E, para além do salto qualitativo, também a maturidade para saber gerir coisas que adquiriste no último ano.
— Sim, porque o ciclismo é um desporto muito mental. A minha primeira Vuelta foi a que vivi melhor, pela minha inexperiência e por não estar tão no centro das atenções. Dizia a mim próprio para ir dia a dia. Depois fui ganhando experiência e a pensar vários dias à frente, o que pode ser negativo. Nessa Vuelta, se havia uma etapa ao sprint, eu comia como se fosse de montanha, porque tinha medo. Foi assim que disputei essa prova e correu-me bem. No último Giro só pensava na última semana, caí na primeira e nunca mais voltei a ter boas sensações. A experiência costuma ser positiva, mas por vezes a falta dela é uma virtude, porque não tinha nada a perder e era divertido. 
 

UM PRIVILEGIADO

 
— O ciclismo continua a ser divertido?
— Para mim, sim. Sou um privilegiado, vivo a vida que sonhei. Há momentos mais duros, mas treinar dá-me prazer e encontrar a melhor versão de mim próprio é o que realmente me motiva, ainda mais do que ganhar uma corrida. Este estilo de vida dá-me gozo.
 
— Durante as polémicas e o ruído que te rodearam, tiveste de te lembrar de que és um privilegiado?
— 2025 foi o ano em que houve mais ruído à minha volta, mas o momento mais duro da minha carreira desportiva foi, sem dúvida, a lesão de 2023. Foi uma lesão muito estranha: tinha um nervo afetado e demorámos mais de um mês e meio até perceber o que era. Nem sequer fazia reabilitação, foi duríssimo. Estava em casa sem saber o que fazer, subia pelas paredes e tinha cada vez mais dores. Cheguei a pensar que talvez não voltasse a conseguir pedalar. Ninguém me dava uma resposta. Fisicamente não foi duro, porque levava uma vida completamente normal, mas mentalmente atrevo-me a dizer que foi a pior fase da minha vida. Ando de bicicleta desde os sete anos e aquilo deixou-me sem rumo.
Em 2025 aconteceram muitas coisas, mas era mais um assunto de advogados, representantes… Ficava à espera que me ligassem para me dizerem a última novidade. Apesar de ter estado um pouco stressado por causa do meu futuro, não tem comparação com a lesão. As polémicas lido bem com elas (ri-se). Quando se projeta uma imagem que não corresponde à verdade — que foi o que me calhou viver —, histórias que se contam e que não são reais, e eu sei que não sou essa pessoa, por um lado custa, por causa de quem não te conhece de lado nenhum e acaba por ter uma opinião diferente daquilo que realmente és. Mas é algo que não posso controlar e lido muito bem com isso.
 
Juan Ayuso foto 3
 
Mas não é fácil uma pessoa abstrair-se de tudo. Isso pode deitar-te abaixo.
— Doeria mais se fosse verdade e viesse a público. Mas como não é, o tempo vai pôr cada coisa no seu lugar. Acho que com a nova equipa isso vai ficar visível — não uma versão diferente, porque continuo a ser o mesmo —, mas sim quem eu realmente sou.
 
Isso tornou-te mais duro?
— Por um lado, sim. Digam o que disserem, é-me indiferente. Mas, em menor escala, sempre tive de lidar com isso. Fui crescendo e aprendendo. Por isso, mesmo sendo agora a outro nível, sei geri-lo.
 
E não te serviu como rastilho para te motivares em cima da bicicleta?
— Sim, sempre tentei ver o copo meio cheio e retirar as coisas positivas. Usei isso como motivação.
 
Se houve um dia em que tudo isso se materializou, foi na etapa de Cerler, na Vuelta.
— Pode ser. Foi um dia de orgulho. Disse à equipa que não queria lutar pela geral; chegámos a Andorra e a equipa continuava a exigir-me. Eu sabia que não estava ao meu nível e preferia ir à procura de etapas, porque era algo que ainda não tinha conseguido. Tinha isso na cabeça e, na etapa anterior, em Andorra, disse: acabou. Ainda por cima, com tudo o que se passava à minha volta em relação à equipa… nessa tarde recebi imensas críticas por ter descolado. Cheguei à massagem e, a falar com o Paco — Lluna, o seu massagista —, disse-lhe: amanhã vou ganhar (ri-se).
 
A sério?
— E foi engraçado, porque o Paco dizia-me que ainda estava relativamente perto na geral e que a Visma não me ia deixar. E eu respondi: “Bah, tanto me faz. Eles não vão ter homens para puxar o dia todo.” E, na partida, falei com eles, avisaram-me que não ia conseguir ir na fuga. Disseram-me de forma cordial; eram as tácticas deles, a corrida deles. Mas quando voltei da assinatura (do livro de ponto), estavam o meu pai, o meu melhor amigo e o Paco, e avisei-os: “A primeira subida vai-me ficar curta”, que era de uns 23 km. Eu sabia que ou ia sozinho ou não ia. Porque, se numa fuga saltassem dez e eu me metesse, iam controlar-me. Antes de chegar à subida, tentei duas vezes e até que o Jorgenson me fechou. Percebi que tinha de ir sozinho e, quando não pudessem controlar 10-15 ciclistas, parava e esperava. E assim foi. Depois ria-me com o Paco porque se percebe, logo nos primeiros dez metros da subida, que eu arranquei pela direita. Mentalizei-me de que tinha de fazer um contrarrelógio. A subida engana porque, na realidade, são 6 ou 7 km duros, que eu conhecia dos meus treinos. Passei a parte mais dura, olhava para o Wahoo e ainda faltavam 15 ou 16 km, que nunca tinha feito, porque quando passava pela vertente mais exigente, geralmente virava. Mentalmente estava preparado para a subida e depois vinha o vale. Tive o grupo sempre a vinte segundos e sabia que não podia abrandar se queria ganhar. Não havia outra opção.
 
— Do que te alimentaste mentalmente nesse dia?
— Se visualizas e acreditas em ti próprio, tudo muda completamente. Na Vuelta, as duas etapas que tinha marcado com um X foram as que tive boas sensações. A de Andorra, pelas circunstâncias, e a de Corrales de Buelna, porque corri lá quando era júnior e é onde vivem os meus melhores amigos. Depois, as pessoas não vão acreditar e vão criticar-me, porque só rendi nessas duas etapas que fui disputar, e quando tinha de ajudar não estive bem. Mas não nos damos conta do poder da mente e do impacto físico que isso tem. Quando ganhas, é uma sensação que faz todo o trabalho valer a pena. Há tanto esforço por detrás que não há sensação nenhuma que se compare a essa.
 
Isso vicia?
— (Pensa) Sim. Ainda mais quando, como no meu caso, tive tantos altos e baixos, contratempos e problemas. Quando voltei, cheguei e ganhei, é uma sensação que não encontrei em mais nenhum outro campo da vida.
 
Juan Ayuso foto 4

 

A FELICIDADE ESTÁ NO PROCESSO

— Com que motivação sais para treinar todos os dias?
— A resposta que as pessoas esperam é ganhar alguma corrida, mas, no meu caso, é melhorar como ciclista. Desde cadete e júnior, encontro satisfação e motivação em progredir. A subida que antes fazia em 10 minutos, agora descer para 9’59’’. Desfrutar do processo mais do que de qualquer corrida. Não nos enganemos: obrigo-me a obter resultados, mas se a minha felicidade dependesse desses resultados, andaria numa linha muito ténue. Se corre bem, a vida é perfeita; se corre mal, é um desastre. Parece-me perigoso. Obviamente, ganhar deixa-me feliz, mas a minha felicidade não está só aí — onde encontro satisfação é a treinar e a melhorar.
 
— Há algo que te cause especial entusiasmo nesta temporada?
— Olha, subir o Alpe d’Huez vai ser incrível, porque fui ver o Tour duas vezes quando era pequeno e tenho fotos lá no topo à espera de que chegasse a corrida. Já competia nesse ano e fomos de férias ao Tour. Pensava que era inalcançável, mas não foi. Era a ilusão de ver os meus ídolos. Estava o Contador e lembro-me de o esperar fora do autocarro para ver se conseguia uma foto com ele. Por isso, quando vejo uma criança, tento fazer-lhe sentir coisas que, quando eu era pequeno, me fizeram imensamente feliz. Ficava entusiasmado só por ver um carro da equipa estacionado, como o do Tinkoff, e tirar uma foto com ele. Quando o Contador caiu, chorei muito. Era paixão — e ainda a tenho. Por isso é que gosto tanto disto.
 
— Consegues visualizar-te com a camisola amarela no topo do pódio nos Campos Elísios?
— Uff, essa é uma pergunta muito complicada. Sim. Quando estou a treinar, é um pouco… acho que todos, quando ninguém nos vê, fazemos aquelas celebrações absurdas. Qualquer criança já sonhou com isso. Agora não faço tanto isso (levantar os braços quando ninguém me vê a treinar), mas nesses momentos penso “por que não?” Sei que, hoje em dia, não é impossível, mas também não é realista colocá-lo como um objetivo claro. Em cinco, seis ou sete anos, por que não? E se não acontecer, estarei igualmente orgulhoso, porque tentei e dei tudo o que tinha.
 

SURPREENDIDO COM O FATOR HUMANO DA LIDL-TREK

Começar com o pé direito, mesmo que seja nos estágios de pré-temporada, já diz muito — e foi assim que Juan Ayuso regressou a casa dos primeiros training camps com a Lidl-Trek. Só há boas sensações.
“Estou impressionado, porque venho da melhor equipa do mundo se olharmos para as estatísticas, e há sempre aquela dúvida sobre como serão aqui as coisas, que equipa humana está por trás. Voltei do primeiro estágio na Alemanha muito satisfeito com o grupo que encontrei e, na seguinte, em Dezembro, trabalhámos mais aspetos de rendimento.”
 
Juan Ayuso recuadro 1
 

Juan Ayuso refere-se à abordagem metódica ao treino e ao rendimento. Diz que sempre gostou de experimentar coisas diferentes, muitas vezes inspiradas noutros desportos, especialmente em áreas como recuperação e performance. Ele valoriza a inovação e gosta de testar métodos que possam ajudá-lo a melhorar.

No seu antigo contexto, embora houvesse dinheiro disponível, a mentalidade da equipa podia ser um obstáculo: se ele sugerisse algo fora da filosofia da equipa, muitas vezes não era implementado, mesmo que pudesse trazer benefícios.

Na Lidl-Trek, isso é diferente: o ambiente é muito aberto a novas ideias, disposto a experimentar, mesmo que nem tudo resulte. Tudo é ponderado e valorizado, o que cria uma boa combinação entre o ciclista e a equipa.

Esse contexto dá-lhe também uma sensação de responsabilidade. Muitas das coisas que pediu para experimentar, porque acredita que o podem fazer evoluir, foram-lhe disponibilizadas. Por isso, pensa consigo próprio, meio em brincadeira, meio a sério: se eu não melhorar com todos estes recursos à disposição, o que vai acontecer? Ou seja, sente a pressão de corresponder às oportunidades que lhe estão a ser dadas.

Mas o mais importante, sublinha, é a dimensão humana da equipa: “Uma equipa é feita pelas pessoas, e com aquelas que estão na Lidl-Trek estou muito agradavelmente surpreendido. Acho que me vou divertir imenso, e isso vai refletir-se nos resultados.”

A IMPORTÂNCIA DO SEU CÍRCULO DE CONFIANÇA

Se há algo importante na vida de um ciclista, é o ambiente à sua volta. Aos poucos, à medida que cresce, Juan Ayuso vai criando o seu círculo de confiança. Os primeiros, aqueles que nunca falham e estarão sempre presentes, são os seus pais, Javier e Susana, e a irmã, María. “Tenho a sorte de que me acompanharam desde pequeno e estiveram comigo em cada passo. Entendem como se deve viver esta vida. São os primeiros a ajudar-me”, conta.

O mesmo se aplica à sua parceira, Laura, que também foi ciclista: “Em casa tens de continuar a preparar-te como se estivesses num estágio, mas não há cinquenta pessoas da equipa por trás, e tudo isso depende deles.” No aspeto mais desportivo, uma figura imprescindível na sua vida há anos é Paco Lluna, o lendário massagista de Marco Pantani, que decidiu acompanhá-lo na Lidl-Trek e permanecer fiel ao seu lado. “É como se fosse da família. Sabe sempre se quero falar ou não, o que preciso ao chegar à meta… pequenos detalhes que facilitam imenso a vida.”

Juan Ayuso recuadro 2

A este grupo de confiança, Ayuso adicionou Giovanni Lombardi como novo manager, uma das peças chave na sua saída da UAE e entrada na Lidl‑Trek. Além disso, ele está a começar a conhecer também o seu novo treinador, o espanhol Aritz Arberas, e a sua nutricionista, Virginia Santesteban.

Ele diz que confia neles, porque está a viver “o passo lógico” de se conhecerem mutuamente e acredita que, com o passar de alguns meses, vai sentir‑se muito à vontade com esta equipa.

Está convicto de que tudo o que viveu no seu percurso até aqui o ensinou muito. “Quando voltei depois dos maus momentos, sempre tirei a minha melhor versão de mim mesmo”, afirma — mostrando maturidade e crescimento pessoal.

Mesmo com todo o ruído à sua volta, ele destaca que “parece que só ficamos com o lado negativo das coisas, mas também vivi coisas muito bonitas”. Ele revela que o período em que mais cresceu mentalmente foi justamente durante a sua lesão — porque, diz ele, “quando ganhamos não aprendemos nada. Ao contrário, podemos até relaxar e depois ver outros a passar‑nos por cima”.

Ao chegar à Lidl‑Trek, Ayuso é um corredor mais maduro do que aquele que assinou contrato pela UAE há cinco anos, “mas vejo‑me igual como pessoa, gosto das mesmas coisas”. Ele até confessou, com um sorriso, que depois de terminar a entrevista iria jogar PlayStation, exatamente como fazia antes.

Como disse uma vez Alberto Contador, “muda mais a forma como as pessoas nos veem do que como nós nos vemos”. E Ayuso conclui: sente que é mais profissional do que quando chegou, porque aprendeu a sê‑lo ao longo dos anos.

O TOUR COMO OBJETIVO; MAS HÁ MUITO MAIS

Juan Ayuso assume qual é o grande objetivo da temporada: a Volta a França. “Um resultado aí, seja bom ou mau, define 80% da temporada, mas não quero deixar que tudo se baseie só no Tour e que o resto não importe.” O seu calendário terá vários momentos-chave e desafios que lhe despertam especial interesse, como a Paris-Nice: “Vai ser uma corrida nova para mim. A Tirreno-Adriático já a conheço bem, por isso vou tentar ir a fundo nela.”

Vai estrear-se na Volta ao Algarve, “que talvez seja a única em que possa ir mais tranquilo, mas nada mais. Acabou-se”, avisa. Em qualquer corrida em que participe, procurará sempre o melhor resultado possível.

Juan Ayuso recuadro 3

Em abril chegará a Volta ao País Basco, onde já sabe o que é ganhar, pois conquistou a camisola amarela em 2024, e de seguida terá o seu primeiro dorsal num Monumento, a Liège-Bastogne-Liège, que lhe dá especial entusiasmo, tal como a Volta à Lombardia no outono. “Vamos ver se consigo finalmente estrear-me, porque sempre que ia correr ficava doente ou estava fora de forma e nunca cheguei bem a outubro.”

Reitera que: “O objetivo principal da temporada é o Tour. A equipa concentra todas as ambições aí e sei que é o mais importante da temporada, mas ficaria feliz se conseguisse ganhar muitas corridas e depois o Tour não corresse tão bem. Também não seria um drama.”

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