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Filipe Francisco, o regresso às raízes na estrada

Filipe Francisco, natural de Loulé e nascido em 15 de outubro de 1998, regressou este ano à Aviludo-Louletano-Loulé, agora com a serenidade de quem já conhece o peso da estrada e a respiração profunda da competição.

Juliana Reis. Fotos: Rodrigo Rodrigues

5 minutos

Filipe Francisco, o regresso às raízes na estrada

Entre o pó dos caminhos, o som seco da bicicleta a rasgar o terreno e a cadência metódica do asfalto, o ciclista algarvio foi moldando uma identidade feita de resistência, técnica e instinto, navegando entre o BTT, o gravel e a estrada com a mesma vontade de sempre.

Em 2021, Filipe Francisco estreou-se na Aviludo-Louletano-Loulé com o peso da transição que seria passar do BTT para a estrada, um ano de adaptação dura, onde a inexperiência nos ritmos do pelotão e uma condição física aquém do exigido o deixaram abaixo do nível exigido. Em 2022, optou pelo afastamento da estrada, rumando à DMT Racing Team por dois anos intensos, onde absorveu a essência do profissionalismo no mundo do BTT, o terreno que sempre lhe despertou maior afinidade e conforto nas curvas imprevisíveis da terra. Anos passaram, e o atleta está agora de volta à Aviludo-Louletano-Loulé.

 

A história que partilha mistura terra e asfalto, resistência e vontade, ingredientes que moldaram a sua carreira e continuam a guiar o seu caminho em 2026.

INÍCIO NO CICLISMO E LIGAÇÃO À EQUIPA

Como é que entraste no mundo do ciclismo e como começou a tua jornada nesta modalidade?
Comecei no ciclismo de forma simples: eram voltas ao fim de semana com o meu pai. Aquelas pedaladas foram o início de tudo. Mais tarde entrei no BTT Loulé e aí a competição começou a fazer parte da minha vida.
 
Já tinhas estado na Aviludo-Louletano Loulé em 2021. Como foi esse ano na equipa?
Foi um ano complicado. Vinha do BTT, sem grande experiência na estrada e com uma forma física longe da ideal. Isso fez com que, nesse período, não conseguisse estar ao nível do pelotão profissional.
 
 
Após 2022, estiveste afastado da estrada. Esse afastamento foi para te focares no BTT?
Sim. Fui para a DMT Racing Team, onde estive dois anos e aprendi o que é ser ciclista profissional, mas no contexto do BTT -  a modalidade onde sempre me senti mais à vontade.
 
Em 2025, conseguiste o 2.º lugar nos Nacionais de Gravel. Já praticavas essa modalidade antes da competição? O que te atrai no gravel?
O gravel foi uma estreia para mim nesses campeonatos. Na verdade, naquela altura estava focado no Mundial de XCM, que aconteceu uma semana antes. Gosto do gravel porque mistura o melhor do BTT e da estrada, o desafio físico e a técnica, além do cuidado com o material e os pequenos detalhes da bicicleta.
 
Como conciliaste, em 2025, os treinos e as diferentes modalidades (estrada, BTT, gravel)? E como continuas a conciliar agora?
Em 2025, o foco era o BTT, mas treinava sobretudo na estrada. Hoje tento incluir o BTT e o gravel nos dias de recuperação ou em treinos longos, para quebrar a rotina e, acima de tudo, divertir-me.
 
 

REGRESSO À ESTRADA E CONTEXTO COMPETITIVO

Filipe Francisco tomou nas suas mãos o regresso ao pelotão nacional, contactando diretamente o diretor Américo Silva, movido por um sonho antigo: ser ciclista profissional de estrada. Escolheu a Aviludo-Louletano-Loulé não por acaso, mas pelas raízes em Loulé e pelas amizades que ainda ecoam no autocarro da equipa. De volta à estrada em 2026, o reencontro com a competição tem o sabor de uma evolução palpável: mais experiência nos ombros, outra clareza no olhar, e aprendizagem constante com os companheiros que o rodeiam.

Como surgiu o contacto para voltares à Aviludo Louletano Loulé em 2026?
Eu próprio contactei o diretor, Américo Silva. Sentia uma vontade enorme de voltar ao ciclismo profissional.
 
 
O que te motivou a voltar especificamente a esta equipa?
Voltei por ser a equipa da minha terra e porque já tinha boas amizades com alguns colegas. É um ambiente que me faz sentir em casa.
 
Como tem sido estar de volta à estrada em competição?
Tem sido muito bom. Voltei com mais bagagem e uma visão diferente. Tenho aprendido imenso com quem me rodeia.
 
Em 2025 correste numa equipa de clube. Achas que esse momento foi importante para recuperar ritmo e confiança?
Sem dúvida. Estar fora da competição profissional fez-me dar um passo atrás para, depois, dar dois em frente. Recuperar o gosto pela corrida, voltar às rotinas e aliviar a pressão foi essencial.
 
 
Por que motivo decidiste voltar à estrada?
Voltei à estrada porque, no BTT, é difícil viver disso em Portugal. Faltam apoios. Além disso, os meus colegas de treino incentivaram-me muito a regressar.
 
Houve algum evento, resultado ou experiência que tenha sido decisivo para esse regresso?
Sim, a época de 2025, que foi muito boa. Creio que todos os resultados desse ano acabaram por abrir caminho para o meu regresso à estrada.
 
 

BTT VS. ESTRADA: PREFERÊNCIA E VIABILIDADE

Filipe Francisco não hesita ao escolher: o BTT pulsa mais forte no seu peito. Na estrada, há o fascínio e a tática do grupo. Em Portugal, porém, o BTT resiste como paixão quase impossível de sustentar:  faltam os holofotes e os orçamentos que a estrada, com a sua visibilidade para patrocinadores, ainda consegue oferecer a uma carreira profissional.

No teu caso, é mais “estrada” ou BTT? O que te move mais em cada uma das modalidades?
Gosto mais do BTT. Adoro o lado técnico, sentir a bicicleta no terreno, fazer ajustes e explorar diferentes traçados. Na estrada, também me atraem as partes mais exigentes, onde o esforço e a tática se unem.
 
 
Achas que é possível viver do BTT em Portugal? E da estrada?
Viver do BTT, neste momento, é muito difícil. Na estrada há mais visibilidade para patrocinadores e estrutura financeira capaz de sustentar uma carreira profissional.
 
Qual é o melhor momento da tua carreira em cima de uma bicicleta?
Foi em 2025, quando consegui subir ao pódio em todos os campeonatos de XCO, XCC, XCM e Gravel — e vencer a Taça de Portugal XCM.
 

FOCO NO FUTURO

O que esperas para a restante temporada de 2026?
Quero continuar a evoluir na estrada e estar à altura das exigências da equipa.
 
Tens algum objetivo específico que queiras destacar para esta época?
Crescer como ciclista de estrada, ganhar experiência e contribuir para o grupo em cada prova.
 
 
O que gostarias de transmitir aos jovens que querem seguir o ciclismo, especialmente quando se quer fazer várias disciplinas ao mesmo tempo?
Vão sem medo! É possível conciliar tudo se houver cabeça e vontade. O essencial é nunca perder o gosto de pedalar e lembrar o motivo que nos trouxe ao ciclismo.

No pelotão, o atleta tem vindo a demonstrar uma prestação consistente nas corridas disputadas até ao momento no calendário nacional, marcando presença em todas as provas e confirmando a sua regularidade e empenho competitivo. Desde a Figueira Champions Classic até à Volta ao Alentejo, mostrando evolução e capacidade de adaptação. O ponto alto até agora foi o quarto lugar na Clássica da Primavera, onde protagonizou uma atuação de destaque.

De Loulé para a estrada, e da estrada para um futuro que ainda se desenha em esforço e paciência, o ciclista algarvio continua a pedalar com a mesma premissa com que entrou neste mundo das duas rodas.

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