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A etapa mais longa desta edição - 214,3 km do Mónaco a Manosque e mais de 3.000 metros de desnível acumulado - movimentou a corrida logo pela manhã. Não tanto pela possibilidade de a fuga vingar, algo que a Visma-Lease a Bike e a Lidl-Trek se encarregaram de manter controlada, mas por tudo o que estava em jogo na disputa pela liderança, após a diferença de apenas nove centésimos que separara Pogačar e Ethan Hayter no contrarrelógio inaugural.
A fuga acabou por se consolidar com Hayter, Koen Bouwman, Diego Uriarte e Sinuhé Fernández. Bouwman rapidamente se focou na classificação de montanha e passou em primeiro lugar tanto no Alto de Châteauneuf-Grasse como no Col de Saint-Andrieu, garantindo a liderança de uma classificação que começava a ser definida este domingo.
Atrás, a Visma e a Lidl-Trek assumiram grande parte da perseguição. Steven Kruijswijk e Jacopo Mosca acumularam quilómetros à frente de um pelotão que nunca deu grande vantagem aos fugitivos, ciente também de que Hayter representava uma ameaça direta à camisola vermelha.
O primeiro incidente importante do dia ocorreu com a queda de Cian Uijtdebroeks. O ciclista belga da Movistar caiu quando ainda faltavam cerca de 156 km e precisou de alguns instantes antes de retomar a corrida. Conseguiu regressar ao pelotão, mas o impacto acabou por ter o seu preço. Nas rampas do Col de Saint-Andrieu, voltou a perder o contacto e, posteriormente, teve de procurar assistência junto ao carro médico — mais um episódio de azar para um ciclista que já tinha começado a Vuelta a perder 54 segundos no contrarrelógio do Mónaco.
A corrida continuou a avançar, com a fuga sob vigilância e Hayter atento a uma marca muito específica: seis segundos. O britânico tinha começado o dia oficialmente com o mesmo tempo de Pogačar, depois de ter estado a apenas nove centésimos de lhe tirar a vitória no dia anterior, e o sprint intermédio de Gréoux-les-Bains oferecia exatamente esses seis segundos ao primeiro classificado.
Antes de lá chegar, a etapa deixou a sua imagem mais amarga. A cerca de 48 km da meta, Sergio Chumil sofreu uma queda muito violenta a meio do pelotão. O campeão da Guatemala ficou estendido no asfalto, com claros sinais de dor, e teve de ser assistido pelas equipas médicas. Pouco depois, confirmou-se a sua desistência, a primeira da Vuelta 2026. Um duro golpe para a Burgos-Burpellet-BH num dia no qual a equipa vinha exibindo as suas cores na frente do pelotão há horas, com Sinuhé Fernández.
Na cabeça de corrida, Hayter decidiu não esperar para ver o que iria acontecer. Desvencilhou-se dos seus companheiros de fuga e enfrentou sozinho a disputa pelo sprint intermédio, ao mesmo tempo que a Visma acelerava cada vez mais atrás. Durante alguns quilómetros, o britânico chegou a ter o pelotão perigosamente perto, mas conseguiu voltar a abrir vantagem e chegou a Gréoux-les-Bains com folga suficiente. Passou em primeiro e o resultado foram seis segundos de bónus e a liderança virtual.
Wout van Aert foi o seguinte a cruzar o sprint e garantiu quatro segundos, enquanto Bryan Coquard ficou com os dois restantes. Hayter tinha cumprido a primeira parte do seu plano. Depois de ter perdido por nove centésimos no Mónaco, conseguiu abrir uma vantagem de seis segundos sobre Pogačar na disputa pela camisola vermelha. Faltava a parte mais difícil: sobreviver à chegada a Manosque. O britânico foi alcançado a pouco mais de 30 km da meta e procurou posicionar-se num grupo que já pensava exclusivamente no final da etapa.
As estradas estreitas, as rotundas e as constantes mudanças de ritmo elevaram progressivamente a tensão. Visma, UAE Team Emirates-XRG, Bahrain Victorious, Movistar, Netcompany-INEOS e outras equipas começaram a disputar cada metro da estrada, deixando o pelotão completamente esticado. Hayter começou a sentir o desgaste da sua longa aventura. O ciclista, que durante boa parte da tarde tinha sido o líder virtual, perdeu posições e acabou por ficar para trás quando a prova entrou na sua fase decisiva. Todo o esforço para conquistar aqueles seis segundos acabou sem recompensa, e Pogačar retomou o controlo de uma classificação que, durante muitos quilómetros, tinha mudado virtualmente de dono.
A Visma tinha ainda outra carta para jogar. A três quilómetros da chegada, era evidente que Brennan era a sua principal aposta para o sprint, com Christophe Laporte e Van Aert a procurarem as primeiras posições. No entanto, o belga não se limitou a atuar como *lead-out man*. A cerca de 1.500 metros da meta, lançou um ataque que obrigou o próprio Pogačar a reagir. O esloveno colou-se imediatamente à sua roda. Alessandro Romele conseguiu juntar-se a eles pouco depois e, por breves momentos, a movimentação ameaçou alterar o desfecho previsto.
A distância para o pelotão nunca foi grande, e a colaboração entre ambos também não foi suficiente. Ao passar pela placa do último quilómetro, o grupo voltou a unir-se. Depois de a Visma ter jogado primeiro a cartada de Van Aert, Brennan surgiu no momento exato. O sprint em Manosque. longo e exigente após mais de quatro horas e meia de prova. recompensou as suas pernas. O britânico acelerou com força e conseguiu abrir uma pequena vantagem, suficiente para celebrar a sua primeira vitória numa Grande Volta logo na sua primeira etapa de estrada numa competição de três semanas.
Pau Miquel surgiu por trás. O ciclista da Bahrain Victorious, leu na perfeição os metros finais, encontrou a brecha e terminou em segundo, conquistando um dos melhores resultados da sua carreira e ficando muito perto de uma vitória espanhola. Pogačar foi terceiro e ainda somou quatro segundos de bonificação, enquanto Pedersen, um dos grandes favoritos do dia e conhecedor da chegada a Manosque, terminou em quarto. Hugo Hofstetter completou as cinco primeiras posições.
A vitória foi para Brennan, mas a etapa albergou muitas outras disputas paralelas: a de Bouwman na montanha; a de Hayter contra as bonificações e contra si próprio; a de Van Aert, tentando surpreender no último quilómetro e meio; e a de Pau Miquel, que esteve a um passo de transformar Manosque no palco da primeira vitória espanhola desta Volta. Pogačar, por sua vez, segue de vermelho. Desta vez não venceu, mas voltou a estar onde precisava.
Quanto aos portugueses em prova, ambos da UAE Emirates-XRG, João Almeida terminou na 59ª posição e Ivo Oliveira na 116ª.
