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Pantani, 15 anos depois

Faz hoje 15 anos que faleceu este espetacular trepador italiano. Uma tragédia que emocionou o mundo do ciclismo.

Carlos de Torres (Agência EFE) Fotos: EFE / Graham Watson

Pantani, 15 anos depois
Pantani, 15 anos depois

 

Quinze anos depois do seu falecimento, o motivo que levou à sua morte ainda hoje é debatido em cafés e em jornais em Itália. Pantani, com o seu estilo inconfundível (muito magro, calvo, com um brinco e uma potência demoníaca nas subidas, ocupa um lugar próprio na história do ciclismo e certamente muitas recordações por parte de todos aqueles que tiveram a felicidade de o ver correr, devido ao seu estilo atacante e extremamente ambicioso. 

"É uma honra que me comparem com ele", disse várias vezes Alberto Contador, considerado o Pantani espanhol e o último representante da escola de ciclismo de Cesenatico. Pantani guarda ainda um feito que não foi repetido: foi o último corredor a ganhar o Giro e o Tour no mesmo ano (1998). Agora, 15 anos volvidos desde a sua trágica e enigmática morte (no dia 14 de fevereiro de 2004, aos 34 anos de idade), muito se fala e muito se especula sobre o que poderá ter acontecido. A verdade é que Pantani apareceu morto no quarto D5 do Hotel Residence Le Rose de Rimini após uma overdose de cocaína. O resultado da autópsia foi contrariado pela mãe do ciclista, que defendeu a teoria de assassinato. Há muito se falava sobre as depressões deste campeão, mas também do mundo das drogas. Aliás, muitos dizem que Pantani começou a morrer muito antes de 2004. Mais concretamente na manhã de 4 de junho de 1999 na localidade de Madonna di Campiglio, a dois dias de se sagrar pelo segundo ano consecutivo vencedor da Volta a Itália. 

Um hematócrito excessivo (em 52%), confirmou o uso de EPO. Nesse dia começou a extinguir-se uma lenda. Começou uma espiral descendente sem retorno que culminou na sua morte. Em 2003 abandonou a bicicleta. Foi mais uma vítima do esquema de dopagem desportiva, como tantos outros de uma época obscura do ciclismo. O senado francês associou o nome de Marco Pantani a EPO, tal como aos seus companheiros de pódio na Volta a França em 98, Jan Ullrich e Bobby Julich.

Pantani, 15 años del último abordaje del "Pirata"

O seu falecimento abriu espaço para uma série de perguntas que demoraram doze anos a serem respondidas. Em agosto de 2014, a Polícia de Rimini abriu uma investigação para comprovar se o ciclista morreu por sobredosagem ou se foi assassinado após ter sido agredido e obrigado a beber cocaína diluída em água, uma tese que era defendida pela família do "Pirata". Outras hipóteses foram surgindo num verdadeiro carrossel de suspeitas. Em 2016, um tribunal italiano referiu que o positivo de Pantani em 1999 foi manipulado pela máfia para falsificar apostas desportivas. Por fim, um médico forense determinou que a causa da morte foi uma sobredosagem de cocaína. 

"Não quero ouvir falar de ciclismo". Pantani não conseguia digerir o resultado positivo no controlo de 1999. Nessa altura já estava a decorrer o seu divórcio com o mundo do ciclismo. Nessa altura, a Itália estava em suspense à espera de novidades de Pantani e o próprio ciclista rivalizava com Berlusconi o grau de fama. Isto aconteceu numa altura em que houve um decréscimo na venda de bicicletas e a crise começou a surgir. Falava-se da sua vida, dos excessos, de tudo. "Vou voltar a competir, embora agora esteja desconetado do ciclismo". E bem que tentou. Na altura preferiu correr numa equipa estrangeira, juntamente com o seu amigo Dani Clavero, com quem esteve três temporadas ao serviço da Mercatone 1. Mas o destino levou-o ao abismo. 

Clavero, que foi profissional durante 12 anos, curou com o passar do tempo o trauma do trágico fim do Pirata, mas as lembranças estão-lhe guardadas a sangue e fogo. "Ele queria, tal como eu, continuar numa nova equipa, mas o projeto não seguiu avante por falta de patrocinador. Não deu em nada, por isso retirámo-nos do ciclismo", recorda Clavero. 

O madrileno explica-nos a dupla personalidade de Marco Pantani, bem diferente em cima da bicicleta. "Como pessoa era muito sensível, muito tímido, muito próximo dos seus amigos e um ídolo admirado num país tão passional como é a Itália, onde nem sequer podia dar um passo sem ser reconhecido na rua. Esse caráter era precisamente o contrário do Pantani ciclista, do Pirata, o corredor agressivo e explosivo que trepava como ninguém. Foi um dos maiores motores do ciclismo, um fora de série. Nem ele estava consciente do seu verdadeiro potencial"

 

Pantani, 15 años del último abordaje del "Pirata"

Clavero também se lembra da facilidade de Pantani para voltar a ficar em forma após uma lesão ou doença. "A sua capacidade de recuperação era assombrosa. Lembro-me de que fraturou a tíbia e voltou ao seu melhor nível em tempo recorde."

Clavero nunca imaginou que naqueles primeiros anos de 2000, Pantaini acabasse por ser derrotado pelas drogas. "Nunca vi nada que me fizesse pensar num trágico final. Comentava-se que algo se passava à sua volta, mas o que aconteceu surpreendeu-me". O Pirata escolheu Clavero como um dos seus homens de confiança dentro da equipa e contava com ele nos estágios em Espanha, onde Pantani procurava tranquilidade, longe da popularidade no seu país. 

"A última vez que o vi foi em novembro de 2003. Chamou-me porque ia de férias e iria passar uma noite em Madrid. Fui buscá-lo ao aeroporto e esteve em minha casa. Veio sozinho, pois procurava tranquilidade. Nesse último ano fui um dos seus companheiros de confiança e sempre contava comigo para treinar". Pantani não voltou a cruzar-se na vida de Clavero. As memórias deixaram a sua marca, mas a sua dimensão enquanto ciclista alcançou cotas exageradas. Um estilo único, de épocas que marcaram a história do ciclismo, quase em extinção, sobretudo desde a retirada do espanhol Alberto Contador, que nunca escondeu a sua admiração pelo Pirata. 

"É um orgulho ser comparado com o Pantaini, pois o seu nome é sinónimo de espetáculo", referiu por diversas vezes o único espanhol vencedor do Tour, Giro e Vuelta. Miguel Indurain, outro dos ídolos espanhóis, tem marcada na sua memória a etapa Merano-Aprica do Giro de 1994, que ganhou o russo Eugeni Berzin. O navarro obliterou a corrida com a ajuda de Marco Pantani, o primeiro a abrir as hostilidades. "Depois de subir o Stelvio e o Mortirolo, alcancei o Marco Pantani a caminho de Aprica. Embora logo a seguir tenha sofrido bastante em Santa Cristina e não consegui ganhar o Giro, mas dei tudo para tentar ganhar. Foi uma etapa intensa e uma sucessão de emoções únicas". 

 

 

 

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