Mobilidade: chegou o momento da mudança

Poucos momentos na história se podem equiparar a este e se refletirmos um pouco, a utilização da bicicleta como meio de transporte para as deslocações diárias de curta duração é a melhor solução.
Carlos Pinto
Mobilidade: chegou o momento da mudança
Mobilidade: chegou o momento da mudança

Vivemos um momento único na nossa história e a bicicleta pode passar a desempenhar um papel ainda mais importante nas nossas cidades. Se durante as Grandes Guerras a bicicleta passou a ser o meio de transporte de eleição pois era o que mais facilmente passava entre os escombros, além de ser o mais barato, se analisarmos a realidade atual em plena pandemia, é a solução lógica para todos aqueles que têm de fazer deslocações de curta duração, pois garante o isolamento social, além de proporcionar bem estar físico e psicológico.

A própria OMS recomenda a utilização da bicicleta como meio de transporte. Ainda mais agora que algumas pessoas passaram a mostrar sinais de fobia social (ou sociofobia), um transtorno de ansiedade em que as pessoas sentem medo, desconforto e tensão quando têm de estar ao pé de outras, sobretudo devido ao receio de serem contaminadas. O desconfinamento parcial anunciado pelo governo vai de certa forma "obrigar" milhares de portugueses a retomar a sua atividade laboral, o que implicará, obviamente, as deslocações casa-trabalho. O sentimento de desconfiança face aos transportes públicos e face a outras pessoas pode fazer com que optem por usar meios alternativos de transporte e aqui a bicicleta pode - e deve - desempenhar um papel importantíssimo, sobretudo nas deslocações de curta duração. Nos países nórdicos isso já acontece, e este é o momento de os países do sul da Europa mudarem o chip e darem a importância à bicicleta que ela merece.

Em Espanha, a associação que defende os interessses do setor, a AMBE, tem estado em constante contato com as entidades e, ao que tudo indica, o próprio governo vai incentivar cada vez mais a utilização da bicicleta pós-confinamento (aliás isso já é visível nas redes sociais e nos jornais). Por cá, as associações que defendem os interesses dos automobilistas são extremamente cáusticas na abordagem à bicicleta como meio de deslocação prioritário e, como todos sabemos, o seu lobby é fortíssimo.

Cabe-nos a nós, cidadãos informados e de pleno direito, analisarmos se de facto a bicicleta pode deixar de ser meramente uma alternativa de deslocação para passar a ser "o" meio lógico e não apenas de um ponto de vista custo/benefício, mas também do ponto de vista ambiental, físico e psicológico. Não nos devemos guiar também pelo medo, mas sim pensar o que é que queremos para o nosso futuro, ou seja, que legado vamos deixar aos nossos filhos e aos nossos netos. Dificilmente encontraremos outro momento como este que nos permite pensar, avaliar e decidir.