Volta a Portugal: cenários possíveis

O adiamento da prova deixou em aberto vários cenários possíveis, mas de uma coisa todos podemos ter a certeza: caso não se realize, todos os envolvidos na prova ficam a perder, principalmente ciclistas e equipas.
Carlos Pinto
Volta a Portugal: cenários possíveis
Volta a Portugal: cenários possíveis

O anúncio por parte da Podium e da Federação Portuguesa de Ciclismo de que a Volta a Portugal teria de ser adiada caiu que nem uma bomba no seio das equipas. A maioria - para não dizer a totalidade - tem estado a estagiar em altitude como preparação para a Volta, o que implica um gasto financeiro importante e a mobilização de uma boa parte da estrutura. Agora, com o adiamento da prova - ainda sem nova data confirmada - esse trabalho não cai por terra (pois todo o treino de qualidade terá resultados futuros), mas deixa um amargo de boca a todos os envolvidos.

A Podium assegurou num comunicado enviado à nossa redação que está a fazer todos os possíveis para que a prova se realize. Mas todos nós sabemos que a Volta a Portugal tem sido um sucesso por dois ou três pilares: decorrer em agosto, mês tipicamente de férias dos portugueses, com audiências televisivas irrepetíveis noutra altura do ano; presença de largos milhares de emigrantes, que fazem questão de ver a prova in loco; transmissão televisiva em direto.

Como é óbvio, nem a Podium (empresa que organiza a prova) nem a Federação Portuguesa de Ciclismo têm culpa da atual situação sanitária que o país - e o mundo - atravessa. Também não considero que os autarcas que não pretendem a Volta nos seus Municípios - casos de Viseu e Viana do Castelo - devam ser culpados de todos os males, pois acredito que o estão a fazer por receio de que surjam contágios. Há quem diga que a posição destes autarcas é extremista e há quem considere prudente. Também acredito que não o fazem para encapotar uma eventual falta de verba para acolhimento da prova. Sinceramente desconheço esse pormenor, mas esses são assuntos que apenas o organizador e as edilidades devem tratar, e não devem ser comentados em praça pública.

E que cenários poderão estar em cima da mesa?

Um cenário óbvio é tentar encontrar municípios que possam acolher a prova nas imediações, para não retalhar em demasia o traçado da prova. Nesse caso, acredito que mesmo não havendo Municípios com capacidade financeira a organização cubra esse encargo para manter a viabilidade da prova, mesmo tendo prejuízo.

Outro cenário é encurtar a prova, aliás como fez a Volta a Espanha. Menos duas etapas num ano atípico salvaria a prova e, sobretudo, diminuiria o impacto que inevitavelmente o ciclismo vai ter no próximo ano.

O terceiro cenário possível é o que nenhum de nós quer: o cancelamento da prova. Caso não seja possível chegar a entendimento (patrocinadores da prova, FPC, RTP, Municípios e Equipas), não haverá outra solução.

Mesmo assim, e como já foi referido tanto pela DGS como pelo próprio Primeiro Ministro, o ponto de situação da pandemia é analisado dia a dia, pelo que o que é hoje, amanhã poderá não ser. Esta incerteza para um organizador ou para um patrocinador é autêntica dinamite.

Sabemos que a Podium está a trabalhar arduamente - ano após ano, conseguem montar um espetáculo digno de uma prova como a Volta a Portugal - mas há variáveis que fogem das suas mãos. Num palco repleto de dúvidas, os meses de setembro/outubro poderão - se não houver mais entraves ou se o número de novos casos não crescer exponencialmente - ser a salvação da prova. Como se prevê uma nova vaga no outono/inverno, será mesmo a única alternativa.

E nesse caso a RTP terá interesse em cobrir a prova em direto, como tem feito? O share de audiência tem justificado a revalidação do acordo com a Podium anualmente, mas mudar a data da prova pode levantar algumas dúvidas aos responsáveis da televisão pública. Não nos podemos esquecer de que transmitir uma prova desta envergadura envolve muitos recursos humanos e técnicos e que geralmente é necessário recorrer a motards e a operadores de câmara estrangeiros (que costumam estar em provas como o Tour). Se a prova portuguesa decorrer na mesma altura do Tour, as consequências são óbvias, até a nível mediático.

Nas próximas duas semanas vamos ter certamente a decisão final da Podium. Vão ser dias de muita tensão e ansiedade certamente para ciclistas, dirigentes e para um conjunto de pessoas que trabalham num evento de grande escala como é a Volta a Portugal. Qualquer que seja a decisão será inédita.