Balanço da primeira parte da Volta a Portugal

Em pleno dia de descanso da Volta a Portugal, fazemos um balanço das primeiras etapas e daquilo que ainda está para vir.
Carlos Almeida Pinto/Revista Ciclismo Foto: João Fonseca -
Balanço da primeira parte da Volta a Portugal
Balanço da primeira parte da Volta a Portugal

Metade da Volta a Portugal já está feita... falta a segunda parte. E em pleno dia de descanso há algumas ilações que podemos tirar. A primeira delas é que a W52-FC Porto continua a ser uma equipa fortíssima e mesmo sem o chefe de fila previsível - Raúl Alarcón - que ainda se encontra a recuperar de uma queda grave. Outra ilação óbvia, é que Gustavo Veloso, pelo menos nesta primeira metade da Volta, mostrou a todos aqueles que o apontavam como acabado, que estavam plenamente enganados. Independentemente do que possa vir a acontecer na segunda parte da Volta, Veloso mostrou porque motivo já ganhou a Volta a Portugal. E numa equipa Profissional Continental com um plantel tão curto (a estrutura portista tem cerca de 16 ciclistas), é natural que todos tenham de estar sempre em plena forma, pois o calendário da equipa de Nuno Ribeiro é muito mais exigente do que o do restante pelotão nacional.

Os principais rivais da W52-FC Porto, sobretudo a Efapel, têm tentado contornar a hegemonia da W52, mas para além de Veloso, João Rodrigues está muito bem classificado à geral, pelo que mesmo que Veloso quebre nas duras subidas que se avizinham a partir de amanhã, Rodrigues demonstrou na etapa da Torre e ontem que pode muito bem ser o segundo líder (isto numa equipa que pode muito bem ter quatro potenciais líderes).  

Joni Brandão claudicou em alguns momentos decisivos, mas pode tentar remediar isso nas próximas etapas. Contudo, nota-se que se o ciclista da Efapel ficar sozinho, isto é, sem a companhia de Henrique Casimiro ou Sérgio Paulinho, a título de exemplo, que são preciosos elementos não só em termos táticos, mas também grandes apoios psicológicos, Brandão poderá não corresponder. 

Na Aviludo-Louletano, o sempre combativo Vicente Garcia De Mateos continua na luta, estando a míseros 22 segundos de Veloso. Nada está decidido e se o espanhol a correr pela equipa algarvia não tiver percalços, tem experiência e maturidade suficiente para tentar atingir aquele que é o seu grande e único objetivo este ano: finalmente ganhar a Volta a Portugal. Neste aspto, temos de enaltecer o grande momento de forma de Luís Fernandes, um incansável trabalhador que na etapa da Torre esteve ao mais alto nível, tendo encetado uma fuga e mesmo depois de ter sido alcançado pelo grupo perseguidor (já de si fragmentado), ainda teve capacidade para se manter neste gruppeto. Chapeaux, Luís!

Na Radio Popular-Boavista, João Benta e David Rodrigues estão dentro do Top10, mas já a mais de 1 minuto da liderança. Os pupilos do Professor José Santos atacaram à vez na subida à Torre, com destaque para David Rodrigues (ex-atleta de BTT, o qual chegou a ser considerado uma das grandes esperanças no XCO). Benta e Rodrigues terão de repetir o feito na serra do Larouco se quiserem subir na classificação geral. Por seu lado, Luís Mendonça esteve prestes a ganhar uma etapa, mas nota-se que falta aquela ponta final. Os dois meses de angústia que passou antes da Volta certamente prejudicaram o treino e o foco, pois se o ciclista da RP-Boavista estivesse na sua melhor forma, o cenário poderia ser muito diferente.

Do Sporting-Tavira todos nós esperávamos mais. As contratações de Tiago Machado e de José Mendes auspiciavam uma grande aposta da equipa liderada por Vidal Fitas na Volta a Portugal, mas o cenário não tem sido risonho para a equipa verde e branco. Ainda para mais numa fase em que se fala do encerramento de algumas modalidades no Sporting. Depois da vitória de Mendes no Campeonato Nacional, as expetativas cresceram, mas a verdade é que Machado esteve no elástico durante a subida à Torre e o melhor classificado é Frederico Figueiredo, em 12º ( a mais de 2 minutos de Veloso). Tiago Machado é 16º a mais de 3 minutos e não sobram hipóteses a Vidal Fitas a não ser entegar a liderança da equipa a Figueiredo (que apesar de novo já tem muita experiência na Volta) e que está a demonstrar estar uns furos acima dos seus companheiros de equipa.

Das equipas estrangeiras, a Amore & Vita-Prodir (e que compete com bicicletas da marca portuguesa Jorbi) é a que mais tem lutado por etapas, tendo já duas vitórias no seu currículo. A Israel Cycling Academy, uma das mais cotadas a correr na Volta a Portugal - e que conta na sua estrutura com o português Pedro Claudino - tem tentado ganhar etapas. Mas todos reconhecem que a W52-FC Porto está mais forte e o facto de ter perdido logo um ciclista (com uma virose, tendo sido internado no hospital logo ao segundo dia) complicou as contas desta formação.

Nas restantes equipas nacionais, a Vito-Feirense-PNB e a LA Alumínios/LA Sport são as únicas que têm um ciclista no top 20: Jesus del Pino na Vito e Emanuel Duarte na equipa de Hernâni Broco.

Em termos de figuras internacionais, Brice Feillu é dos mais cotados. O ciclista da Arkea-Samsic admite que a nossa Volta é dura, mas estando a mais de 6 minutos da liderança, dificilmente atingirá um resultado de relevo.

Da Caja Rural/Seguros RGA também se esperava mais. O atual líder, Sergio Pardilla, está muito longe na classificação geral, e tem sido Domingos Gonçalves a salvar as cores desta formação espanhola. E não é por falta de iniciativa.

A Volta tem sido marcada nesta primeira metade pela controvérsia acerca das decisões dos comissários. A verdade é que se fala mais fora do pelotão do que internamente, pois as equipas já aceitaram a soberania das decisões do Colégio de Comissários. Contudo, e este é um ponto a rever, as multas aplicadas (em francos suíços, pois é a moeda padrão na União Ciclista Internacional) muitas vezes são mais avultadas do que aquilo que os ciclistas vão receber em prémios. E numa prova sem bonificações, onde as vitórias em etapa geram pouca receita para os respetivos vencedores, não estarão estas multas a fazer com que as equipas internacionais pensem bem antes de aceitar vir competir na Volta a Portugal?

Este é um problema que a Podium terá de resolver, pois cada vez menos equipas de relevância querem vir a Portugal. Para além de ser em Agosto, com muito calor e onde é necessário uma logística maior do que numa prova de quatro ou cinco dias, as equipas sabem que a forma de correr na Volta é diferente e ainda acresce o facto de os prémios monetários serem bastante baixos. 

Resta-nos aguardar pela segunda metade da Volta, a qual contempla mais montanha e mais fatores decisivos. Veremos se a W52-FC Porto vai manter o domínio, ou se as restantes formações têm cartas guardadas na manga. O tempo escasseia, as oportunidades também e nem todos se dão bem com o dia de descanso, portanto a partir de amanhá será uma nova corrida em disputa. Será a hora da verdade.